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Um fragmento de tecido foi o suficiente para confirmar algo que os estudiosos suspeitavam há décadas: a púrpura de Tiro, o corante mais caro e prestigiado da Antiguidade – e citado em passagens bíblicas –, chegou a regiões remotas do Império Romano e foi usado até nos funerais de bebês.
Arqueólogos e químicos da Universidade de York, na Inglaterra, identificaram vestígios de púrpura corante rara bíblica em túmulos romanos com cerca de 1.700 anos, encontrada na própria cidade de York. A descoberta arqueológica surpreendeu os pesquisadores não só pelo que revela sobre o luxo na Roma Antiga, mas também pelo contexto em que o pigmento apareceu: envolvendo os corpos de dois recém-nascidos.
O que é uma púrpura de Tiro e por que ela era tão benéfica?
A púrpura de Tiro, também chamada de púrpura tíria, foi extraída de moluscos marinhos do gênero Murex. O processo era artesanal, trabalhoso e projetado enormes volumes de matéria-prima para produzir quantidades mínimas de pigmento. O nome vem de Tiro, cidade fenícia no atual Líbano, que era o principal polo de produção desse corante antigo.
O resultado foi uma cor arroxeada intensa, resistente ao desbotamento e praticamente impossível de falsificar. Por isso, o tecido púrpura antigo se tornou símbolo de poder, riqueza e autoridade.
Em determinados períodos, o corante raro chegou a custar três vezes mais do que o ouro. O fato tornou qualquer peça de roupa tingida com ele um artigo absolutamente exclusivo.
Quando o corante púrpura de Tiro foi citado na Bíblia?
Para o leitor cristão, o corante da Bíblia não é novidade. A Sagrada Escritura menciona a púrpura em diferentes momentossempre associado ao poder e distinção.
No livro de Atos dos Apóstolos (16:14), Lídia é mencionada e descrita como “vendedora de tecido de púrpura, da cidade de Tiatira”. Ela é uma mulher de negócios que, ao ouvir a pregação do apóstolo Paulo, se converteu à fé cristã.
Já no Evangelho de Marcos (15:17), o mesmo corante aparece em um contexto dramático: soldados romanos vestem Jesus com um manto de púrpura para zombar da acusação de que ele seria o “Rei dos Judeus”, antes da crucificação. A cor, naquele contexto, era o símbolo máximo da realidade.
Como os cientistas identificaram o corante?
Os túmulos romanos encontrados fazem parte do acervo do Confiança dos Museus de York e datam do final do século III ou início do século IV dC Trata-se de dois bebês em caixões distintos – um de pedra, outro de chumbo – envoltos em tecidos que, segundo as análises, eram tingidos com a púrpura de Tiro e ornamentados com fios de ouro.
A identificação foi feita pelo Centro de Excelência em Espectrometria de Massa da Universidade de York, pelas pesquisadoras Jackie Mosely e Jennifer Wakefield e o que se tornou possível foi um detalhe do ritual funerário romano: o uso de gesso líquido despejado sobre os corpos já amortalhados.
Ao suportar, a camada trabalhada como uma espécie de cápsula protetora, preservando fragmentos de tecido e resíduos químicos do corante por quase dois milênios.
O trabalho integra o projeto multidisciplinar Vendo os Mortos, liderado pela professora Maureen Carroll, do Departamento de Arqueologia.
“Pela primeira vez, temos a confirmação do uso deste corante caro na York romana, indicando que os habitantes ricos da cidade tinham acesso a mercadorias caras e exóticas provenientes do outro extremo do império”, explicou o pesquisador em entrevista à CNN.
O que a descoberta do corante revela sobre a Roma Antiga?
A presença de um corante tão raro em sepultamentos de bebês diz muito sobre quem eram essas famílias, e sobre como elas enfrentavam a perda. York era uma cidade romana no norte da Inglaterra, longe do Mediterrâneo e dos grandes centros produtores de luxo.
Encontrar a púrpura de Tiro ali é evidência direta de que redes comerciais sofisticadas conectavam os cantos mais distantes do Império.
Mas talvez o aspecto mais tocante da descoberta seja outro. Há muito tempo, os historiadores debatem se os romanos desenvolviam laços emocionais com os bebês, dado que cerca de 30% das crianças morriam antes de completar um ano e leis antigas proibiam o luto público por recém-nascidos.
Os túmulos de York contam uma história diferente: famílias que investiram no corante mais caro do mundo, em fios de ouro e em rituais elaborados para dar aos filhos a melhor despedida possível.
“Essa descoberta notável diz muito sobre a importância das crianças na York romana e a disposição da família em dar ao seu bebê a melhor despedida possível em situações trágicas”, afirma Carroll.
Um simples fragmento de tecido, preservado por acaso em uma camada de gesso, acabou revelando rotas comerciais, orientações sociais, práticas funerárias e afetos humanos de quase dois mil anos atrás. E trouxe de volta, com precisão química, um cor que percorre as páginas da Bíblia e que, ao que tudo indica, também cobriu os últimos momentos de crianças que a história havia esquecido.
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