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Três semanas que azedaram a aproximação entre Lula e Trump

Redação Por Redação
22 de abril de 2026
Em Notícias
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Três semanas que azedaram a aproximação entre Lula e Trump
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As relações entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump atingiram seu momento mais tenso nas últimas três semanas, após uma sequência de medidas diplomáticas, comerciais e políticas que ampliaram o atrito entre os dois países.

Na segunda-feira (20), o governo Trump decidiu expulsar dos Estados Unidos o delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho, que teria atuado na detenção do ex-deputado federal Alexandre Ramagem pelo departamento de imigração americano na semana passada. Ramagem, condenado pelo STF no âmbito da suposta tentativa de golpe, está nos Estados Unidos desde dezembro do ano passado.

Em nota publicada no X na segunda-feira (20), o Departamento de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado americano justificou que “nenhum estrangeiro tem o direito de manipular nosso sistema de imigração para burlar pedidos formais de extradição e estender a caça às bruxas política ao território dos EUA”.

Em resposta, Lula disse que o Brasil poderia adotar o princípio da “reciprocidade” – isto é, expulsar agentes americanos que estão no país.

Nesta quarta-feira (22), o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, disse em entrevista à GloboNews que retirou as credenciais de um adido da agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) no Brasil.

Analistas especializados em relações internacionais indicam que não houve uma ruptura definitiva, mas a relação permanece frágil e sujeita a oscilações, com tendência de aumento do atrito no curto prazo e manutenção pragmática dos laços econômicos.

Segundo o analista Igor Lucena, a medida de “reciprocidade” anunciada pelo diretor da PF tem potencial de escalar ainda mais que o esforço. “A tendência é que isso gere alguma ocorrência do governo americano, ainda não se sabe em que intensidade”, projetou Lucena.

O Brasil foi alvo de tarifas e investigações comerciais no retorno de Trump à Casa Branca

Nos primeiros meses após sua volta à Casa Branca, no ano passado, Trump tomou uma série de medidas contra o Brasil e agentes do Estado brasileiro.

Alegando perseguido ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e censurando as empresas e cidadãos americanos na razão de decisões da Justiça brasileira relativas às redes sociais, ele impôs uma tarifa de 50% sobre as importações americanas do Brasil antes que Bolsonaro fosse condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos e três meses de prisão em setembro, por acusações de tentativa de golpe de Estado após a eleição de 2022.

Em julho de 2025, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) iniciou uma investigação sobre práticas comerciais do Brasil que consideram injustas, entre elas, o Pix e a venda de produtos piratas na Rua 25 de Março, em São Paulo.

No mesmo mês, gerando críticas da gestão Lula, o Departamento do Tesouro americano impôs avaliações econômicas ao ministro do STF Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky, uma legislação dos Estados Unidos que permite a Washington aplicar avaliações contra acusados ​​de violação de direitos humanos e corrupção em todo o mundo.

Em setembro, a esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, e o Instituto Lex de Estudos Jurídicos, vinculados ao casal, foram alvos das avaliações.

Outras medidas do governo Trump foram a revogação de vistos de Moraes e de outros ministros do STF, além dos mesmos documentos de ex-integrantes do Ministério da Saúde da ex-presidente Dilma Rousseff (2011-2016) e da esposa e da filha do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em razão do programa Mais Médicos, alegando que profissionais cubanos foram submetidos a trabalhos impostos.

Padilha não teve o visto cancelado porque seu documento foi vencido desde 2024. Para participar da Assembleia Geral da ONU em Nova York, em setembro, ele recebeu um visto com restrições de circulação.

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Aproximação breve entre Trump e Lula começou na ONU

Foi justamente na cúpula de chefes de governo e de Estado nas Nações Unidas que Lula e Trump ensaiaram uma aproximação. Os dois se cumpriram rapidamente em Nova York, o republicano fez elogios ao petista e depois ambos tiveram conversas cordiais, por telefone e presenciais, esta em outubro, na Malásia.

Em novembro, Trump retirou tarifas de 50% sobre carnes, café e outros produtos agrícolas do Brasil, como forma de reforçar a inflação dos alimentos nos Estados Unidos.

Outro gesto saudado pelo governo Lula foi a decisão, em dezembro, de retirar Moraes, o Instituto Lex e a esposa do ministro do STF da lista de alvos de avaliação via Lei Magnitsky.

Até o início de abril, as relações entre os dois governos não chegaram a ser 100% amistosas, visto que ocorreram outras divergências, como a decisão do Departamento de Estado americano, em janeiro, de suspender a concessão de vistos de residência permanente para cidadãos do Brasil e outros 74 países, já que os imigrantes destas nações receberam benefícios sociais “em níveis inaceitáveis”; A decisão de março do governo Lula de impedir Darren Beattie, assessor de Trump, de entrar no Brasil, onde pretendia visitar Bolsonaro.

Entretanto, as taxas diplomáticas escalaram ainda mais a partir de 1º de abril e são as maiores desde o tarifaço.

Naquele dia, o Comitê Judiciário da Câmara dos Estados Unidos, órgão de maioria republicana, divulgou um relatório no qual alegou que o Estado brasileiro busca “silenciar a dissidência política” e que Moraes pratica “censura e guerra jurídica” que podem interferir na eleição presidencial brasileira, que será realizada em outubro.

Corroborando a visão dos deputados americanos, o Departamento de Estado disse no mesmo dia ao portal Metrópoles que acompanha com “sérias preocupações” as alegações do documento.

Também em 1º de abril, o USTR divulgou um relatório sobre a investigação comercial em andamento contra o Brasil e reiterou questões com questões como o Pix e a pirataria de produtos americanos.

Ainda neste mês, segundo o Metrópoles, o governo Trump colocou o Brasil na lista dos principais países de origem de substâncias utilizadas na produção de drogas, ao lado de nações como China, Venezuela, Coreia do Norte, Colômbia, Índia, México, Bolívia, Afeganistão e Tailândia.

Outros pontos de atrito recentes foram as críticas de Lula às ações militares dos Estados Unidos na Venezuela e no Irã e à possibilidade de uma ação semelhante em Cuba e a intenção anunciada de Washington de designar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas, medida rejeitada pelo governo brasileiro.

Por fim, veio a decisão desta semana do Departamento de Estado Americano sobre Marcelo Ivo de Carvalho e a retaliação do diretor da PF.

Especialista afirma que Lula poderá explorar a narrativa de defesa da “soberania”

Em entrevista à Gazeta do PovoRicardo Caichiolo, professor de relações internacionais e diretor do Ibmec Brasília, disse que não acredita que a aproximação entre Lula e Trump foi definitivamente “enterrada”, mas que esta “tem sido circunstancial e frágil” e que os avanços nas relações no segundo semestre de 2025 “não superaram divergências em temas políticos e institucionais”.

“No curto prazo, a tendência é de aumento do atrito retórico e episódios diplomáticos pontuais. Nos próximos meses, o cenário mais provável é de contenção pragmática, com preservação dos laços comerciais. Uma escalada mais dura pode ocorrer em temas sensíveis como negociações e liberdade de expressão. Ruptura ampla é pouco provável”, disse Caichiolo.

O especialista afirmou que o custo entre os dois governos pode influenciar a eleição brasileira “ao serem internos ao debate político interno”.

“O governo pode explorar a narrativa de defesa da soberania nacional, enquanto a oposição tende a usar críticas externas para questionar decisões internas”, pontuou Caichiolo.

“Um conflito moderado pode ter utilidade eleitoral para Lula, ao fortalecer o discurso nacionalista e de autonomia. Contudo, isso só funciona se não houver custos econômicos.”

Igor Lucena, economista e doutor em relações internacionais, afirmou à Gazeta do Povo que as ações de Lula, especialmente as críticas a Trump sobre as ações americanas na Venezuela e em Cuba, além do posicionamento contrário à abordagem do republicano na América Latina, representam um “desafio” nas relações entre os dois governos.

“O presidente Trump não quer ter inimigos na América Latina; ele busca afirmar a supremacia ideológica dos Estados Unidos dentro desse conceito de uma nova Doutrina Monroe, e não deseja que o Brasil se oponha a isso. Portanto, acredito que outras situações de tensão com o governo Lula ainda podem acontecer”, disse Lucena.

“Além disso, o fato das pesquisas eleitorais indicam a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro [PL-RJ] representa, para Trump, um incentivo. Se houver alguma forma de influenciar uma mudança de governo para um alinhamento mais pró-Trump, como seria um eventual governo de Flávio Bolsonaro, ele provavelmente fará”, acrescentou o analista.

Lucena afirmou que a estratégia do governo Trump poderá ser de aprofundar o isolamento do Brasil e de apoio indireto a lideranças alinhadas aos interesses americanos.

“Do meu ponto de vista, essa tensão pode, sim, evoluir, mas de forma marginal quando comparada aos problemas internos do Brasil, como o aumento dos gastos públicos, a inflação e a queda no poder de compra da população”, disse o especialista.

“Além disso, há temas sensíveis que podem ganhar peso, como a situação do Banco Master e as discussões envolvendo o STF. Caso surjam questionamentos nos Estados Unidos sobre decisões do STF ou sobre o próprio Banco Master, isso pode se transformar em munição política contra o governo, especialmente diante da percepção de proximidade entre essas instituições e o governo Lula”, afirmou Lucena.

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