Pedidos de quebra dos sigilos fiscal e bancário de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, aprovados na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS e no Supremo Tribunal Federal (STF) já estão dando munição para a oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida eleitoral deste ano. Segundo analistas ouvidos pela reportagem, a repercussão das suspeitas coloca o Palácio do Planalto no centro do escândalo das fraudes no INSS.
“Essa quebra do sigilo do filho do Lula prejudica muito o governo. O Lula não está num momento bom, ele se embaralhou todo. Houve um desgaste. O seu governo novamente recolocou a questão da corrupção nas manchetes, nas discussões”, avalia o cientista político Adriano Cerqueira.
Segundo ele, a opinião pública tende a unificar as crises ética e econômica em um único sentimento de insatisfação. A percepção de gastos públicos elevados e o aumento da carga tributária criam um terreno fértil para que denúncias de corrupção ganhem tração popular.
Procurados pela Gazeta do Povo, o Palácio do Planalto e a defesa de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, não se manifestaram até o fechamento desta matéria. À CNN Brasil, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, conselheiro jurídico de Lulinha, afirmou que a quebra de sigilo “é uma medida completamente esdrúxula”, porque ele sequer é investigado pela PF. Segundo ele, o filho de Lula se colocou à disposição para qualquer esclarecimento.
“É um escândalo você ter o filho do presidente da República ligado diretamente a um operador financeiro do roubo do INSS, envolvendo R$ 6 bilhões, sindicatos de fachada, prestadores de serviço que não prestavam serviço”, declarou o deputado federal Luiz Lima (Novo-RJ), que foi agredido com um soco na cara por um dos governistas após aprovação da quebra de sigilo.
A oposição já sinaliza que pretende transformar o episódio em eixo político nos próximos meses. “É óbvio que essas questões terão relevância no processo eleitoral deste ano”, diz o deputado Ubiratan Sanderson (PL-RS).
“Sou e sempre serei a favor de qualquer espécie de investigação de CPI, porque a transparência é a maior ferramenta contra a corrupção. Então, se não deve nada, por que razão não querem a quebra de sigilo?”, questionou.
A quebra do sigilo do filho de Lula foi aprovada na manhã de quinta-feira (26) por parlamentares da CPMI junto com uma série de requerimentos que visam esclarecer suspeitas sobre figuras ligadas ao governo.
Entre eles estão as quebras de sigilo de um ex-CEO do Banco Master, que a oposição chama de “banqueiro do PT”, do CredCesta, um cartão de benefícios consignados para servidores que foi privatizado durante governo do partido na Bahia, e de uma empresária suspeita de pagar uma mesada para Lulinha.
“Esse é o motivo do desespero que a gente tá vendo aqui, praticamente um uma crise de histerismo que depõe contra esse Parlamento, com parlamentares agredidos, com a interrupção do processo”, disse o senador Rogério Marinho (PL-RN).
A legalidade da aprovação está sendo contestada por parlamentares do Partido dos Trabalhadores. No momento da aprovação, houve confusão e troca de empurrões e socos no plenário da CPMI.
Ainda durante a sessão da CPMI, foi vazada a informação de que a Polícia Federal já havia feito em janeiro um requerimento ao ministro André Mendonça, do STF, para quebrar os sigilos fiscal, bancário e também telemático de Lulinha. O pedido foi autorizado, segundo informações divulgadas inicialmente pelo portal Poder 360 e confirmadas pela Gazeta do Povo.
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Quebra do sigilo de Lulinha estava no radar da PF
A Gazeta do Povo confirmou com fontes ligadas à Polícia Federal que a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Fábio Luís Lula da Silva já estava no radar da corporação ao menos um mês antes da decisão da CPMI do INSS. A quebra foi autorizada ainda em janeiro pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, em resposta à representação formal apresentada pelos investigadores.
A decisão integra o inquérito que apura os descontos bilionários indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS e tramita sob sigilo.
De acordo com fontes a par do caso, a apuração busca esclarecer, entre outras frentes, se existe algum tipo de vínculo direto ou indireto entre Fábio Luís e a empresária Roberta Luchsinger, apontada como possível elo com o empresário Antônio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS” e citado como operador do esquema investigado.
A PF ressaltou no pedido que as referências ao filho do presidente surgiram por menções de terceiros e que, “até o momento, não há comprovação de participação direta nos fatos”. Por isso, as diligências foram classificadas como etapa necessária de verificação técnica, dentro do que a corporação define como “apuração cautelosa e baseada em elementos objetivos”.
Fontes da investigação afirmam ainda que, a depender do entendimento de Mendonça, os dados obtidos nessa quebra poderão ser compartilhados com a CPMI do INSS. Mas que para isso há critérios estritamente técnicos que têm como finalidade esclarecer os fatos com rigor, preservando garantias legais e afastando interferências externas. Essas informações constam no próprio inquérito que segue sigiloso.
Em nota enviada ao jornal Estado de S. Paulo, em dezembro de 2025, a defesa de Roberta Luchsinger disse que a empresária “jamais teve qualquer relação com descontos do INSS” e afirmou que ela foi procurada por Antunes para atuar na regulação de empresas de canabidiol.
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A decisão da CPMI do INSS de quebrar sigilos de Lulinha foi avaliada por analistas políticos como um movimento que amplia o alcance investigativo, representa uma perda política para o governo que havia se mobilizado para derrubar o requerimento e reforça a busca por transparência.
“Se não há nada de errado com ele no caso do INSS, que mal há em se aprovar a quebra do sigilo e prestar depoimentos a congressistas? Se não há o que esconder nem fraudes a se ocultar, essa quebra de sigilo pode ser uma oportunidade inclusive de promover transparência à população brasileira, mas representa uma derrota inesperada para o governo”, alerta a doutora em Direito Público Clarisse Andrade.
Na avaliação do doutor em Direito e comentarista político Luiz Augusto Módolo, a decisão representa uma medida “corajosa e acertada” diante da gravidade das suspeitas investigadas.
Para Módolo, a investigação pode ampliar a pressão sobre o Palácio do Planalto ao associar o governo Lula a um período em que os descontos indevidos em benefícios previdenciários cresceram sem contenção e em que autoridades responsáveis pela área permaneceram em seus cargos.
O constitucionalista André Marsiglia diz que a medida, comum em investigações parlamentares quando há menções em relatórios ou delações, vai permitir cruzar dados financeiros, verificar compatibilidade entre patrimônio e rendimentos e mapear eventuais vínculos societários.
“Enquanto isso, deputados de esquerda partem para agressão após a aprovação da quebra de sigilo de Lulinha na CPMI do INSS”, lamenta o constituconalista.
“A quebra de sigilo não é antecipação de culpa, mas instrumento de apuração”, segundo o professor de Direito Público e Constitucional Jorge Martins de Oliveira. Mas ele alerta que, se não houver a individualização adequada da conduta investigada, a decisão pode ser questionada no Supremo Tribunal Federal por suposta violação a direitos e garantias fundamentais, como “intimidade e devido processo legal”.
Sobre o impacto político, Martins de Oliveira avalia que o episódio amplia a pressão institucional sobre o governo, ainda que a responsabilidade, se comprovada, seja pessoal de Fábio e não do presidente. “Quando envolve familiar direto do chefe do Executivo, o efeito político é inevitável e representa uma perda para o governo que não conseguiu articular sua base contra a convocação”, afirma.
Para Clarisse Andrade, o desdobramento dependerá exclusivamente do que os dados bancários revelarem. “Se confirmarem indícios, o caso ganha densidade, se não houver irregularidades, a própria quebra de sigilo poderá servir para encerrar suspeitas”, complementa.
“Lula hoje é mais de um governo envelhecido, desgastado e às voltas mais uma vez com escândalos de corrupção e de gastos sem medida. A população está tendo dificuldade de fechar as contas, está endividada e está vendo Brasília num mundo à parte. E com todos esses escândalos à sua volta. Tudo isso só prejudica diretamente a imagem do governo”, pontua o cientista político Adriano Cerqueira.
Governistas tentam barrar votação e contestam resultado
A base governista atuou para impedir a aprovação dos requerimentos e defendeu que a pauta fosse votada em bloco com o objetivo de rejeitar todos os pedidos de uma só vez. Após a aprovação da quebra de sigilo, parlamentares aliados ao Planalto passaram a questionar a contagem dos votos e alegaram irregularidades na condução da sessão.
Segundo integrantes da base, houve divergência na aferição do quórum no momento decisivo, o que, na avaliação deles, poderia comprometer o resultado. O grupo afirma que houve “fraude” no placar e sustenta que a votação não refletiu corretamente a manifestação dos parlamentares presentes.
O presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), rebateu as críticas e afirmou que todos os procedimentos seguiram estritamente o regimento interno. De acordo com ele, houve verificação formal de presença no painel eletrônico, com 31 parlamentares registrados, e apenas sete votos contrários à pauta — número insuficiente para barrar os requerimentos.
“Não houve manobra. Eu segui o jogo e o regimento desde o início. No voto, o governo perdeu”, declarou. Viana também ressaltou que a quebra de sigilo não representa juízo de culpa, mas instrumento legítimo de investigação. “Agora a comissão poderá analisar os dados e verificar se há ou não responsabilidade”, afirmou.
Os governistas recorreram ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e pediram a anulação da votação sob alegação de fraude na contagem. Até o momento, não há decisão sobre o pedido.
Relator apontou indícios e fundamentou quebra de sigilo
O pedido da quebra de sigilo bancário e fiscal de Lulinha foi apresentado pelo relator Alfredo Gaspar (União-PE). No requerimento, ele cita a interceptação de mensagens atribuídas ao Antonio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, nas quais ele menciona o repasse de R$ 300 mil ao “filho do rapaz”. Para a PF, a expressão seria uma referência a Fábio Luís. O diálogo é tratado pelos investigadores como indício de vínculo financeiro entre os envolvidos.
Outro elemento citado são registros de viagem que mostram que Lulinha e Antunes estiveram juntos em Lisboa, em novembro de 2024. De acordo com os documentos anexados, ambos teriam embarcado na mesma ocasião em assentos de primeira classe, com passagens cujos valores variam entre R$ 14 mil e R$ 25 mil.
O requerimento também menciona suspeitas de que Lulinha teria atuado como “sócio oculto” em empreendimentos ligados ao mercado de cannabis medicinal. Conforme a investigação, essas empresas teriam sido financiadas com recursos que, em tese, teriam origem em desvios da Previdência Social.
De acordo com o relator, a quebra de sigilo é instrumento legítimo para esclarecer suspeitas e disse que não há motivo para resistência caso não existam irregularidades.
“Qual é o problema de abrir o sigilo? Quem não deve, não teme. A quebra de sigilo não é condenação, é meio de investigação”, declarou Gaspar. Para ele, a medida permitirá identificar eventual fluxo de recursos e confirmar ou afastar suspeitas.
O senador Izalci Lucas (PL-DF) sustentou que há menções ao nome de Lulinha em relatórios e que a comissão precisa aprofundar a análise de dados financeiros e de inteligência para esclarecer o grau de eventual envolvimento. “A quebra de sigilo vai permitir saber o nível e o volume de recursos movimentados”, afirmou.
A deputada Caroline de Toni (PL-SC) classificou a aprovação da quebra de sigilo como o “fim da blindagem”. Ela ressaltou que dois ex-dirigentes do INSS estão presos desde novembro e citou a existência de supostas delações que mencionariam o filho do presidente como possível beneficiário do esquema. A informação foi publicada pelo portal Metrópoles, mas não foi confirmada formalmente. Para a parlamentar, a decisão representa um avanço da comissão, independentemente da resistência da base governista.
A defesa de Lulinha, por sua vez, classificou a decisão como desproporcional e afirmou que ele não é formalmente investigado pela Polícia Federal. Os advogados sustentam que não há vínculo com as fraudes apuradas e que o empresário está à disposição para prestar esclarecimentos.












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