
O Congresso Nacional vai enfrentar nas próximas semanas um período de baixa atividade presencial em Brasília justamente no momento em que novas revelações sobre o Banco Master ampliam a pressão política por investigações parlamentares. Um acordo articulado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), com líderes partidários prevê três semanas de votações virtuais no plenário da Casa, enquanto o Senado, comandado por Davi Alcolumbre (União-AP), também pretende operar em regime semipresencial.
Na prática, o arranjo reduziu a presença física de deputados e senadores em Brasília em um momento de forte repercussão política do caso envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. Nos bastidores do Congresso, os parlamentares admitem que a dinâmica tende a esfriar temporariamente os debates sobre o tema no plenário e nas comissões, ao mesmo tempo em que se intensificam as articulações partidárias e negociações para as eleições deste ano.
Segundo o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), o acordo entre os partidos define que a pauta da semana será equipada com projetos unidos à bancada feminina. “Temos muitos desafios. Recentemente, ao lado dos presidentes de todos os poderes, assinamos o pacto contra o feminicídio. O número de mulheres que são mortas no Brasil agora nos entristece muito, e isso exige de nós respostas duras”, afirmou.
O acordo na Câmara tem como pano de fundo a chamada janela partidária, período em que os deputados podem trocar de legendas sem a perda do mandato. O prazo vai até 3 de abril e, até lá, os parlamentares buscam partidos que acomodem seus interesses locais e eleitorais.
O esvaziamento coincidiu com uma fase de forte repercussão do caso Banco Master, investigado pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero. A investigação envolveu suspeitas de fraudes bilionárias e levantou questionamentos sobre a rede de relações políticas e institucionais mantidas por Vorcaro, após a análise de mensagens extraídas de seu celular.
As atenções se voltaram principalmente para a suspeita de que o ministro do STF Alexandre de Moraes teve contado indevido com o investigado enquanto o escritório de sua mulher recebia pagamentos milionários.
No mesmo movimento, questões consideradas mais sensíveis foram retiradas da pauta da Câmara. É o caso do projeto que estabelece um novo regime de resolução bancária e cria mecanismos para atuação do Banco Central em situações de risco ao sistema financeiro. A proposta estava prevista para votação, mas acabou sendo retirada após a repercussão do caso Banco Master.
Para o líder do PSB na Câmara, Jonas Donizette (SP), parte dos parlamentares é inadequadamente discutindo o tema neste momento. “Algumas pessoas acharam que era inoportuno votar o projeto, pela ocorrência que teve agora com o Banco Master. Eu fui um dos que defendi que o projeto, justamente, traz mais regras. Seria uma resposta do Parlamento a uma situação que mostrou que tem fragilidade”, afirmou.
Calendário virtual esfria debate sobre escândalo no Congresso
A decisão de adotar votações virtuais nas próximas semanas tende a reduzir a intensidade do debate político sobre o caso Banco Master no Congresso Nacional. Com a possibilidade de registrar votos à distância, muitos parlamentares devem permanecer em seus estados, o que diminui a circulação política em Brasília e o ritmo de articulações em torno de investigações parlamentares sobre o escândalo.
Na Câmara dos Deputados, apenas entre os dias 16 e 20 de março está prevista uma semana de votações presenciais. Nas demais semanas, os deputados poderão registrar seus votos por meio do sistema eletrônico Infoleg, que permite a participação remota nas deliberações do plenário.
No Senado, a expectativa é de que o funcionamento semipresencial produza efeito semelhante. O modelo híbrido, adotado com maior frequência desde a pandemia, permite que os senadores participem das votações sem necessidade de presença física em Brasília, o que historicamente reduz o espaço para articulações, políticas mais intensas e reuniões presenciais entre lideranças.
Para parlamentares da oposição, o calendário legislativo acaba coincidindo com um momento em que aumenta significativamente as investigações sobre o caso Banco Master no Congresso.
Segundo avaliação da deputada Adriana Ventura (Novo-SP), o momento revela a fragilidade da atuação do Parlamento. “Olhando de maneira fria, isso vem e tem sua razão de existir num Congresso Nacional fraco, que não envelhece quando tem que agir”, afirmou.
Oposição vê tentativa de Alcolumbre esvaziar a pressão por CPMI do Master
Apesar do ritmo mais lento das atividades presenciais no Congresso, os parlamentares da oposição intensificaram a pressão pela instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar o caso do Banco Master. O requisito para criação do colegiado já reúne o número mínimo de assinaturas desde o final de 2025, mas ainda depende da leitura em sessão do Congresso Nacional para ser oficialmente instalado.
Entre os críticos da demora está o senador Eduardo Girão (Novo-CE), que afirma que os desdobramentos da Operação Compliance Zero, que resultou na prisão de Vorcaro no começo deste mês, indicam a existência de um esquema grave de corrupção que precisa ser purificado pelo Parlamento. “Tem muita coisa a vir à tona ainda, e é por isso que nós conclamamos o povo brasileiro a se posicionar. É para ontem a instalação da CPMI do Banco Master”, disse.
Girão também protocolou nesta segunda-feira (9) uma representação no Conselho de Ética do Senado pedindo o afastamento do presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Na avaliação do Senado, Alcolumbre estaria omitindo ao não dar andamento ao pedido da CPMI e aos requerimentos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
“Nós entramos pela primeira vez nesta legislatura com uma representação no Conselho de Ética do presidente para o afastamento imediato do Davi Alcolumbre. Infelizmente, todo esse caos que estamos vivendo, essa insegurança jurídica, decorre da omissão da presidência do Senado”, disse Girão.
Já a deputada Adriana Ventura acusou o Congresso de omissão diante do caso. Segundo ela, “o Senado não cumpriu seu papel” e o presidente da Casa estaria “se fazendo de morto” ao não dar andamento à investigação sobre o escândalo envolvendo o Banco Master.
Citados na rede de contatos de Vorcaro, Motta e Alcolumbre silenciaram sobre investigações
As investigações da Polícia Federal sobre o Banco Master também revelaram a presença de lideranças do Congresso Nacional na rede de contatos do banqueiro Daniel Vorcaro. Extraídas do celular do empresário mencionam encontros e mensagens com autoridades do Legislativo, incluindo o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Entre os registros realizados pela investigação está o relato de um jantar na residência oficial da presidência da Câmara com Motta e um grupo de empresários. Em outro diálogo, Vorcaro afirma ter participado de uma reunião na residência oficial do Senado, em Brasília, que teria sido prorrogada até meia-noite. As mensagens foram recuperadas da quebra de sigilo telemático do banqueiro no âmbito da Operação Compliance Zero.
Desde a divulgação das mensagens, na semana passada, nem Motta nem Alcolumbre se manifestaram sobre o que foram tratados nesses encontros com o banqueiro preso pela Polícia Federal. A corporação ressalta que menções a autoridades em conversas privadas não indicam, por si só, qualquer irregularidade por parte das pessoas mencionadas.
Ainda assim, os registros passaram a ser estudados pelos pesquisadores para mapear a rede de interlocução política mantida por Vorcaro enquanto o Banco Master expandia sua atuação no sistema financeiro. Em entrevista por telefone à Rádio Metrópoleda Bahia, nesta segunda-feira, o presidente da Câmara foi questionado sobre como o caso do Banco Master atinge o universo político e a eleição deste ano.
“Temos que defender a purificação imparcial de todo e qualquer problema que exista no nosso país. Esse problema do Banco Master, temos que analisar que o próprio Supremo Tribunal Federal tem acompanhado de perto e decisões importantes, como a que tomou na semana passada”, disse o presidente Motta.












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