
O governo Lula (PT) anunciou nesta segunda-feira (23) a revogação do decreto que prevê a concessão à iniciativa privada de hidrovias de rios amazônicos. Indígenas bloquearam a entrada no terminal da multinacional agrícola Cargill, no porto de Santarém (PA), há um mês contra a norma.
O Decreto 12.600, de agosto de 2025, inclui as hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND). O objetivo era facilitar o transporte fluvial de grãos em rios amazônicos por meio de obras de dragagem.
Um grupo de indígenas invadiu, na madrugada do último sábado (21), os escritórios da Cargill em Santarém. Também foram realizados protestos em frente à sede da empresa em São Paulo. A multinacional classificou duas ações como “violentas”.
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“A Cargill confirma que na noite de ontem, 20 de fevereiro, duas ações violentas promovidas por manifestantes atingiram os ativos da empresa. No escritório central da empresa, em São Paulo (SP), um grupo de pessoas vandalizou a fachada do edifício”, disse a Cargill, em nota divulgada neste final de semana.
Nesta tarde, a Secretaria-Geral da Presidência da República, comandada por Guilherme Boulos, informou que a decisão de revogar o decreto foi do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Houve uma mobilização legítima e justa dos povos indígenas em relação a esse decreto, e o governo do presidente Lula tem a capacidade de escuta. O governo do presidente Lula ouve a sociedade”, afirmou o ministro, em nota.
O Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), que representa 14 povos do Baixo Tapajós, cobrou “coerência” do petista em uma carta aberta divulgada no sábado (21).
“O governo federal tem feito bonitos discursos sobre a preservação da Amazônia, mas somos nós que cumprimos esse dever constitucional, que é pressuposto da nossa existência. O rio é nosso sangue”, disse a entidade, em nota.
Diante da pressão, Boulos e a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, receberam, nesta segunda (23), representantes dos indígenas para uma reunião no Palácio do Planalto.
“Os indígenas estão há 33 dias na ocupação com mulheres, crianças e que seguem lá acampadas com condições precárias. Então, foi muito importante para as pessoas também considerarem essa questão humanitária que se encontra o movimento neste momento”, disse Guajajara.
Indígenas comemoram revogação do decreto
Nas redes sociais, o Cita divulgou imagens dos indígenas comemorando a decisão do governo no acampamento feita no terminal da Cargill. “Aqui na ocupação da Cargill, neste 23 de fevereiro, seguimos firmes. Já são 33 dias de resistência, e hoje saímos vitoriosos dessa luta com a grande notícia: o Decreto 12.600/2025 foi revogado”, diz o comunicado.
“Essa conquista é fruto da força coletiva dos povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais que não recuperaram diante das ameaças aos nossos territórios e às nossas águas”, afirmou a entidade em outra publicação.
Justiça determinou desbloqueio do terminal da Cargill
No último dia 13, um juiz federal determinou o fim do bloqueio do cais em 48 horas. O Ministério Público Federal (MPF) recorreu e conseguiu protestar a decisão, mas o recurso foi anulado no domingo (15) e a decisão inicial voltou a valer.
A Justiça tentou novamente a desocupação em 48 horas nesta quinta (19). Os indígenas assinalaram na carta que liberaram as vias de forma de importação para que se restabelecessem o fluxo de mercadorias, embora tenham reafirmado que continuaram com o protesto.
Neste sábado (21), a Justiça Federal negou um pedido da Cargill para desocupar o escritório da empresa no porto de Santarém à força. O juiz considerou que a solicitação da força policial, sem um “plano operacional estruturado e sem diálogo com os atores envolvidos, apresenta risco concreto de agravamento do conflito”.












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