Desde o início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em janeiro de 2023, o discurso presidencial sobre segurança pública, crime organizado e atuação policial passou por mudanças de tom. Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo Aponte que essa alteração de curso é fruto de uma análise estratégica que acompanha a evolução das pesquisas de opinião que passaram a indicar a insegurança como uma das principais angústias do eleitorado brasileiro.
Mais do que isso: ações audaciosas cometidas pelo crime organizado têm restrição na pauta da opinião pública o questionamento: o Brasil está virando um narcoestado? Como resposta, uma tentativa de agrupamento ao eleitor, da parte de Lula, tornou-se mais evidente e mais frequente ao longo do último ano. quando a violência alcançou o topo das preocupações nacionais e pressionou a popularidade do presidente para baixo.
O padrão identificado pelos analistas é o de um governo que reage ao ambiente social e político, ajustando o tom do discurso conforme os dados que mostram a percepção pública sobre segurança. Para mapear essa trajetória, a Gazeta do Povo desenvolvimento, com apoio da ferramenta Google Pinpointum levantamento sistemático de discursos presidenciais e de declarações de ministros petistas, especialmente o de Ricardo Lewandowski (que pediu a saída do cargo no último dia 8 de janeiro), além de pesquisas de opinião nacionais que trataram do tema.
Os documentos analisados pela reportagem estão disponíveis online. O cruzamento das informações revela um fio condutor: o avanço do medo social precede as mudanças retóricas no Planalto.
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O ponto de partida: críticas à polícia antes da explosão do medo
Em março de 2023, ainda nos primeiros meses do mandato, Lula adotouva um discurso crítico à atuação policial. Durante o relançamento do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, no Palácio do Planalto, o presidente da República afirmou que, nas periferias, o Estado muitas vezes “só está presente com a polícia para bater”.
À época, o tema ainda não liderou as pesquisas de opinião, mas os especialistas já viam risco na abordagem. Para o advogado e especialista em segurança pública Alex Erno Breunig, membro da Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares, fala com contribuições presidenciais para deslegitimar as forças policiais.
Segundo ele, ao generalizar a atuação policial como violenta, Lula estimula a desconfiança social e a rivalidade, prejudicando a cooperação entre a população e agentes de segurança. O primeiro sinal estatístico de alerta surgiu em abril de 2023. Pesquisa Genial/Quaest realizada de 13 a 16 daquele mês, com 2.015 entrevistas presenciais com reuniões a partir de 16 anos e margem de erro de 2,2 pontos percentuais, apontou que a violência era a segunda maior preocupação nacional, mencionada por 22% dos entrevistados. A economia liderou, com 31%.
O levantamento coincidiu com um dos primeiros momentos de queda na popularidade presidencial: a desaprovação de Lula atingiu então 42%. Para o investigador das forças federais de segurança e especialista em segurança pública Sérgio Gomes, ele foi um dos balizadores em que ficou evidente a explosão entre explosão da criminalidade, temor social e ajustes no discurso governamental, ainda que sem ações concretas correspondentes.
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Promessas de normalidade e distância entre discurso e realidade
Em julho de 2023, durante a assinatura do Programa de Ação na Segurança (PAS), Lula voltou a prometer que o Brasil caminharia para um cenário de “paz, segurança e tranquilidade”. O presidente afirmou que o governo federal trabalharia para reduzir a violência e devolver a normalidade à vida cotidiana.
Gomes analisa, em contraponto, que os meses seguintes demonstraram o oposto: organizações criminosas ampliaram atuação territorial e econômica, enquanto o discurso oficial não se traduziu em mudanças estruturais perceptíveis para a população.
Um ano depois (julho de 2024), nova rodada de pesquisa Quaest — realizada entre os dias 5 e 8 daquele mês, com cerca de 2 mil entrevistados em 120 municípios e nível de confiança de 95% — mostrou que a violência permanente como grande preocupação nacional (19%), logo depois da área econômica (21%).
Naquele momento, a avaliação popular sobre o governo federal era relativamente estável: 54% aprovavam o trabalho de Lula, enquanto 43% reprovavam-no. Para o constitucionalista Alessandro Chiarottino, esse equilíbrio mascarava uma tensão crescente, que se manifestaria com mais força nos meses seguintes.
O divisor de águas: roubos e furtos de celulares explodem
Pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada em agosto de 2024 revelou dados que impactaram fortemente o debate público. O levantamento, feito com 2.508 pessoas em todo o país, apontou que 9,2% dos brasileiros tiveram roubos de celulares ou furtados entre julho de 2023 e junho de 2024 — o equivalente a 14,7 milhões de vítimas.
O estudo mostrou que 45% dos casos não foram registrados oficialmente, explicando a discrepância em relação ao Anuário Brasileiro de Segurança Pública que apontava números inferiores a um milhão de vítimas. O prejuízo estimado foi de R$ 22,7 bilhões, e 53% dos entrevistados disseram evitar circular em determinados locais por medo de ações criminosas.
Poucos dias antes da divulgação dos dados, Lula havia mais uma vez criticado policiais e afirmou que pessoas pobres não deveriam ser confundidas com criminosos. Com repercussão negativa da pesquisa, o presidente mudou o Tom e declarou que o Brasil não seria uma “República de ladrões de celulares”.
Para o sociólogo e especialista em segurança pública Marcelo Almeida, esse levantamento foi o gatilho para uma nova inflexão discursiva e mais uma mudança de postura no governo Lula. E então, em dezembro de 2024, o governo publicou um decreto regulamentando o uso da força policial, no qual impunha restrições operacionais sob o argumento de proteção aos direitos humanos. Embora a adesão dos estados não fosse obrigatória, o texto condicionava repasses federais à sua aplicação.
Na avaliação de Breunig, o decreto burocratizou a atividade policial e enfraqueceu a capacidade de ocorrência em cenários de alta violência. A ocorrência negativa levou o governo a divulgar nota oficial em janeiro de 2025, afirmando que o texto estava sendo alvo de desinformação e que não tirava dos policiais o direito do uso da força armada quando necessário.
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Em 2025, a violência assume o protagonismo absoluto
Em março do ano passado, a pesquisa Genial/Quaest indicou que, pela primeira vez, a violência liderava as preocupações nacionais: 29% dos entrevistados apontaram a área como principal problema do país, o maior índice desde o início da série histórica. Questões sociais apareceram em segundo lugar no levantamento junto à população, com 23%.
A pesquisa coincidiu com uma mudança significativa no discurso de Lula, que passou a afirmar que “o Estado é mais forte que os bandidos” e o defensor com mais ênfase a PEC da Segurança Pública, que apesar das inúmeras tentativas do governo, emperrou no Congresso, após avaliação de que a proposta tiraria poderes dos estados e municípios e concentraria decisões no governo federal.
Para o jurista Luiz Augusto Módolo, a sincronia entre pesquisa e discurso não foi casual. “As pesquisas seguimos mostrando a preocupação dos brasileiros com o tema e o avanço das facções em todos os segmentos”, afirma.
O paradoxo do desencarceramento em meio ao medo social
Apesar do perseverança retórica, o governo lançou, em fevereiro de 2025, o Plano Pena Justa, em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF). Na percepção de especialistas, a iniciativa propunha, na prática, um desencarceramento em massa, com a retirada de milhares de presos do sistema sob o argumento de resolver a superlotação carcerária.
Dados da Secretaria Nacional da Administração Penitenciária, órgão vinculado ao Ministério da Justiça, indicam que o Brasil tem cerca de 942 mil presos, a terceira maior população carcerária do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. Para o constitucionalista e comentarista político André Marsiglia, o plano proposto pela gestão petista contradiz o discurso de enfrentamento ao crime organizado, tendo em perspectiva que pequenos pequenos detalhes se sustentam financeiramente como facções.
“Soltar ladrões de celulares porque não recebeu a força para a prática é dar legitimidade ao crime organizado e manter seu financiamento ativo”, alerta. Uma forte ocorrência popular e política ocorreu após Lula afirmar, em outubro do ano passado, que “traficantes são vítimas dos usuários”.
Logo em seguida, uma rodada de pesquisa Genial/Quaest mostrou que 81% dos brasileiros discordavam do presidente, enquanto 14% concordavam. Pesquisa foi realizada de 6 a 9 de novembro, com 2.004 entrevistados em 120 municípios — margem de erro de dois pontos percentuais.
Após a repercussão negativa, Lula prometeu devolver a declaração, que o presidente caracterizou como “mal colocado”, voltando a reafirmar o compromisso no combate ao crime organizado. “Mas não se desculpou pela fala nem disse estar equivocado sobre a relação traficante/dependente”, avalia Marsiglia.
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Oposto à opinião popular, Lula criticou grande operação no Rio de Janeiro
A cobrança popular não arrefeceu. Levantamento do Instituto Paraná Pesquisas divulgadas em outubro de 2025 mostraram que 45,8% dos brasileiros acreditavam que a segurança pública havia piorado no governo Lula. No Rio de Janeiro, levantamento com 800 entrevistados revelou apoio majoritário às megaoperações policiais: 69,6% foram desenvolvidos e 67,9% defenderam novas ações semelhantes.
Esses índices antecederam o envio do PL Antifacção ao Congresso e a sanção de leis mais duras contra organizações criminosas, muitas delas propostas por parlamentares da oposição, como o caso da Lei 15.245/2025, de autoria do senador Sergio Moro (União-PR). Aprovada pelo Congresso, a lei foi sancionada por Lula dois dias após uma megaoperação realizada pelo governo do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho (CV).
Para Gomes e Alex Erno Breunig, a trajetória do discurso presidencial de Lula alterna momentos de crítica à polícia, defesa de políticas humanitárias, persistência retórica e apelos à cooperação internacional, sempre em resposta direta à pressão política e à opinião pública. “O governo reage aos fatos, mas não construiu uma política consistente de longo prazo”, reforça, por sua vez, André Marsiglia.
A opinião é compartilhada pelo Método. De acordo com ele, a segurança pública tornou-se um discurso de palanque, ajustado conforme o ambiente, mas marcado por contradições entre fala e prática. “E certamente esse será um tema que vai pesar fortemente à possível campanha de reeleição em 2026, o que indica que teremos novos ajustes nos discursos, com teoria e prática não se cruzando”, sustenta.












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