
Em meio a pressão e indefinições sobre seu futuro político, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, está prestes a deixar a carga alegando “missão cumprida” à frente da massa. Após dizer à imprensa que fevereiro seria seu último mês sem carga, o ministro decidiu prorrogar a permanência e deve deixar o posto neste mês.
Nos bastidores, o nome mais cotado para substituí-lo é o do atual secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan. Haddad deverá se candidatar ao governo de São Paulo nas eleições de outubro.
Recentemente, Haddad chegou a desafiar ex-ministros da Fazenda de governos passados para um debate sobre as contas públicas, fazendo críticas ao que consideramos ser falta de “honestidade intelectual” de parte da sociedade e da imprensa na avaliação da economia.
Entre os argumentos usados para sustentar seu ponto de vista, estão o déficit primário dentro da meta, o baixo nível de desemprego e o ritmo de crescimento da economia, justificados, segundo o último Boletim Macrofiscal referente a 2025, pela “consolidação fiscal iniciada em 2024”.
O discurso, porém, contrasta com os números oficiais, que traduzem o principal componente do seu legado: a trajetória explosiva da dívida pública nos últimos três anos, fruto da falta de controle dos gastos públicos.
Quando Haddad assumiu a Fazenda, em 2023, o Banco Central apontou uma dívida bruta do governo em 71,7% do PIB. O montante subiu para 74,3% no fim do primeiro ano da gestão Lula e para 76,1% do PIB em 2024. Dados de novembro de 2025 revelaram uma dívida de 79% do PIB, e as projeções do Tesouro Nacional para 2026 apontam para o patamar de 81,7% do PIB.
As expectativas de mercado são ainda mais alarmantes, projetando até 84,9% do PIB, segundo dados do Prisma Fiscal.
“A interrupção fiscal das contas do governo nos últimos três anos é uma questão inequívoca, não de honestidade ou desonestidade”, diz o economista Alexandre Manoel, sócio da Global Intelligence and Analytics.
“Basta observar o tamanho do aumento da dívida — um aumento que, por exemplo, não ocorreu na gestão passada. Nas duas últimas décadas, os dois maiores saltos aconteceram neste governo e no da ex-presidente Dilma Rousseff”.
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Regra fiscal insuficiente para controlar a dívida
Embora o ministro tenha insistido nos “esforços do governo” para o ajuste das contas, o objetivo naufragou, e a estratégia ficou ancorada em uma regra fiscal considerada frágil.
“O problema é que a regra fiscal criada no início deste governo — e amplamente aprovada pelo Congresso Nacional — não garantiu, por si só, a sustentabilidade da dívida pública”, diz João Mário de França, do FGV-Ibre.
“Quando não há uma regra fiscal robusta, o resultado é a manutenção de juros elevados, com o Banco Central tentando conter a pressão de demanda.”
Haddad sustenta que as metas de resultado primário previstas no arcabouço fiscal vêm sendo cumpridas. Na prática, porém, esse desempenho ocorreu em grande medida de ajustes contábeis e de exclusão de despesas do cálculo da meta — as chamadas medidas parafiscais.
O mecanismo nasceu das despesas extraordinárias relacionadas às tragédias climáticas no Rio Grande do Sul, em 2023, e passou a ser usado de forma recorrente, permitindo que diferentes gastos fossem excepcionalizados.
Esse processo viabilizou o déficit zero em 2025, dentro da banda de tolerância de 0,5% do PIB. Na prática, porém, um déficit que chegou a cerca de 0,48% do PIB foi convertido, após ajustes, em um resultado negativo de 0,10% do PIB.
Para França, mesmo sem o artifício, o arcabouço não garantiria a sustentabilidade das contas. “O superávit primário permitido é muito inferior ao necessário para estabilizar a dívida, pois se apoia essencialmente no aumento da arrecadação.”
Empenhado em aumentar impostos, Haddad virou “Taxad”
A agenda de elevação de receitas teve custo político elevado. Embora o discurso oficial fosse da “justiça tributária”, a estratégia consolidou a imagem de Haddad como um ministro adicionado ao aumento de impostos, traduzida no apelido de “Taxad”.
Logo de saída, com o arcabouço fiscal em vigor a partir de 2024, a agenda arrecadatória ganhou centralidade. No Congresso, a condução da agenda foi marcada por negociações intensas sob a presidência de Arthur Lira (PP-AL) na Câmara. A relação entre ambos foi funcional, mas assustadora: acordos eram internos, reabertos e renegociados.
O foco inicial foi tentar reverter desonerações herdadas, especialmente a da folha de pagamentos, além da reoneração gradual dos combustíveis e da aprovação da Lei nº 14.754/2023, que cerrou o diferencial do IR sobre fundos exclusivos e offshores.
A desoneração da folha, porém, tornou-se um dos primeiros grandes debates políticos em 2023. A proposta de encerramento do benefício resultou em eventos do Congresso e de setores empresariais, levando o governo a recuar. Após semanas de negociação, o Planalto sancionou a prorrogação do regime, ainda que com compromissos futuros de revisão.
O episódio expôs os limites da articulação política da Fazenda e localizou um padrão que se repetiria ao longo da gestão: resistência parlamentar a medidas de recomposição fiscal, negociações prolongadas e soluções para evitar derrotas no Congresso.
Crises, armadilhas e fogo amigo
Fora do Congresso, ainda em 2024, Haddad surpreendeu um de seus desgastes políticos mais ruidosos: a crise do Pix. Discussões técnicas sobre o monitoramento de transações pela Receita Federal foram exploradas nas redes sociais como tentativa de tributação.
O episódio ganhou escala após a divulgação de um vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) que viralizou, pautou o debate público por dias e expôs falhas relevantes na comunicação da equipe econômica.
Outro momento crítico ocorreu em novembro de 2024, quando o governo anunciou, antes mesmo de qualquer envio formal ao Congresso, um pacote de contenção de gastos ao mesmo tempo em que sinalizava a prorrogação da isenção do IR para rendas de até R$ 5 mil por mês.
A combinação de mensagens — austeridade de um lado, colapso tributário do outro — consolidando a percepção de que o governo “dava com uma mão e tirava com a outra”, desgastando mais Haddad e desacreditando ainda mais o ajuste fiscal.
Meta cumprida, Orçamento aprovado e legado ambíguo
Após o debate em torno do IOF — quando o governo tentou aumentar a arrecadação por decreto e houve forte ocorrência do Congresso — e da desidratação, no Parlamento, de uma medida provisória que ampliava a tributação sobre aplicações financeiras, o Planalto entrou no segundo semestre de 2025 com base na necessidade de preservação do arcabouço fiscal e viabilizar a aprovação do Orçamento de 2026.
O esforço se concentrou menos em novas iniciativas estruturais e mais em contingenciamentos, recomposição parcial de receitas e negociações pontuais com o Congresso.
No fim de 2025, o governo aprovou o Orçamento de 2026 com meta de superávit primário de 0,25% do PIB, conforme previsto, devido à combinação de medidas arrecadatórias já aprovadas, contenção de despesas discricionárias e redução de margens de manobra. Na prática, transferiu o custo do ajuste para o próximo governo.
Para Manoel, a gestão de Haddad teve méritos ao reorganizar e recuperar a base de arrecadação do governo federal. Ele também destaca avanços como a reforma tributária sobre o consumo (Emenda Constitucional nº 132/2023) e o Marco Legal das Garantias (Lei nº 14.711/2023).
“Trata-se de um conjunto de reformas de impacto microeconômico que governos anteriores — como os de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL) — desejam, mas não conseguem concluir”, afirma. Ainda assim, pondera, “o legado é ambíguo”.












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