Desde o início do atual mandato do presidente Lula (PT), o governo federal já editou 43 medidas para aumentar a arrecadação, o equivalente a uma nova iniciativa a cada 27 dias.
O avanço das medidas ocorre em meio a sucessivos registros de arrecadação. Em 2025, o governo federal fechou o ano com R$ 2,9 trilhões arrecadados, alta real de 3,65%. Em janeiro deste ano, a arrecadação também bateu recorde, com R$ 325 bilhões – 3,56% acima do registrado no mesmo período do ano anterior.
Até hoje, a gestão atual de Lula criou ou elevou impostos 36 vezes. Somam-se, ainda, outras cinco propostas que caducaram juntamente com a MP 1.303 — apelidada por críticos de “MP taxa tudo” — e que o governo não retomou, mas que vigoraram por alguns meses, além de duas iniciativas de natureza não tributária.
Mais impostos sem racionalizar gastos públicos
Luís Garcia, advogado tributarista e especialista em Governança e Compliance, afirma que a quantidade de medidas para aumentar a arrecadação é bastante expressiva. O país já enfrentou uma tributação elevada para padrões de países emergentes, cerca de 34% do PIB, compatível com as nações estrangeiras.
“Trata-se, na prática, de uma estratégia recorrente e preocupante de recomposição fiscal pela via arrecadatória, sem que se observe, na mesma proporção, um esforço de racionalização do gasto público ou de redução estatal”, comenta.

Economia desacelera quando a carga de impostos é excessiva
O resultado, segundo ele, é mais pressão sobre empresas e consumidores, menor competitividade e menos estímulo ao investimento — o que tende a desacelerar a atividade econômica e reduzir a arrecadação no prazo médio.
Os dados demonstram essa dinâmica: em 2025, a economia registrou o índice de crescimento de 2,3%, o mais baixo desde a pandemia, diminuindo a desaceleração econômica já esperada pelo mercado.
No plano fiscal, a situação é ainda mais grave. Em seu relatório de fevereiro, a Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado Federal, afirma que o país precisaria gerar um superávit primário superior a 2% do PIB para “estancar o preocupante crescimento da dívida pública e mudar o perfil do gasto público”.
Registro de arrecadação não resolve desequilíbrio fiscal
O ajuste fiscal e estrutural nos gastos, no entanto, não é o que está previsto para o ano eleitoral de 2026. O cenário, na prática, representa uma “bomba fiscal” deixada para quem subir a rampa do Planalto em 2027.
A própria IFI entende que os objetivos fiscais para este ano são modestos: atingir o déficit zero, contando com os mesmos recursos utilizados em 2025 para cumprir a meta: o limite inferior do arcabouço fiscal e os gastos fora do resultado primário.
Não por acaso, o pessimismo com a economia como um todo aumentou: segundo pesquisa Datafolha divulgada na quarta-feira (11), 46% dos entrevistados perceberam piora econômica nos últimos meses, cinco pontos percentuais acima dos 41% registrados em dezembro de 2025. Já o grupo que afirma ter percebido melhora caiu de 29% para 24% no mesmo período.
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Raio-x dos impostos: quais foram as medidas arrecadatórias de “Lula 3”
As medidas para elevar a arrecadação obrigatória pelo governo envolvem diferentes frentes: reoneração de combustíveis, mudanças na tributação de investimentos, aumento de impostos sobre operações financeiras e reversão de incentivos fiscais impostos nos anos anteriores.
Veja, a seguir, a lista das propostas aprovadas ou inovadoras pelo governo Lula ao longo de 39 meses de governo:
Consumo e comércio
- Reversão de alíquotas de PIS/Cofins sobre receitas financeiras de grandes empresas;
- Retomada da incidência de PIS/Cofins sobre gás e etanol;
- Criação de imposto temporário sobre a exportação de petróleo cru;
- Instituição de Imposto de Importação para compras abaixo de US$ 50 que não integrassem o programa Remessa Conforme – a chamada “taxa das blusinhas”;
- Ampliação da “taxa das blusinhas” para compras de até US$ 50 no Remessa Conforme;
- Aumento do Imposto de Importação sobre Painéis Solares;
- Retomada da incidência de PIS e Cofins sobre diesel e biodiesel;
- Aumento do Imposto de Importação sobre aço e ferro;
- Criação do IVA dual, com alíquota estimada em 28,5%, com vigência a partir de 2027;
- Criação do Imposto Seletivo (apelidado de “imposto do pecado”) a partir de 2027;
- Elevação no Imposto de Importação sobre quase mil itens.
Investimentos e renda
- Tributação de fundos exclusivos (“come-cotas”);
- Tributação de rendimentos no exterior (offshores);
- Criação de imposto mínimo sobre altas rendas e tributação de dividendos;
- Imposto mínimo global de 15% sobre lucros de multinacionais;
- Aumento na retenção de IR retido na fonte sobre Juros de Capital Próprio (JCP);
- Retenção de IR na fonte sobre dividendos remetidos ao exterior;
- Fim da autorização de IR para fundos imobiliários e Fiagro.
Operações financeiras
Aumento do IOF sobre:
- Compras internacionais sem cartão;
- Moeda em espécie;
- Crédito para empresas;
- Seguro de vida VGBL;
- FIDC;
- Cooperativas de crédito.
Setores específicos
- Taxação das apostas eletrônicas esportivas (apostas) em 12%;
- Elevação progressiva do imposto sobre as apostas, até 18%;
- Elevação de IPI para armas de fogo;
- Fim da Autorização e Imposto de Importação Progressiva para Veículos Elétricos;
- Aumento da CSLL de fintechs e instituições de pagamento;
- Instituição de Imposto de Exportação de 12% sobre o petróleo bruto.
Mudanças em benefícios fiscais e estrutura tributária
- Retirada do ICMS da base de cálculo de créditos tributários do PIS/Cofins;
- Retomada da incidência de IRPJ e CSLL sobre benefícios fiscais;
- Limitação ao uso de Juros sobre Capital Próprio (JCP);
- Reoneração da folha de pagamento dos municípios e setores econômicos;
- Fim do Perse, incentivo fiscal criado na pandemia para o setor de eventos e turismo;
- Redução linear de 10% sobre benefícios fiscais.
Medidas previstas na “MP taxa tudo”
Ainda que tenha caducado e algumas de suas medidas tenham sido retomadas pelo governo – como o aumento da tributação de fintechs e apostas –, a chamada “MP taxa tudo” extinguiu benefícios e elevou tributações enquanto esteve em vigor.
A medida provisória tornou-se válida entre 11 de junho e 8 de outubro de 2025 e estabelecia 11 medidas. Com a perda de validade, seis delas foram reapresentadas em outros projetos e restabelecidas, ainda que com algumas diferenças, como consta na lista acima.
Foram retomadas a elevação na alíquota das apostas, novas regras para concessão do seguro-defeso, elevação da CSLL para fintechs, elevação do IR retido na fonte sobre JCPs, fim da isenção para fundos imobiliários e Fiagro, e o IOF sobre FIDCs. Enquanto esteve em vigor, o MP ainda estabelecia:
- Tributação de 5% sobre LCI e LCA, entre outros títulos incentivados;
- Alíquota fixa de 17,5% do IRPF retido na fonte sobre rendimentos e ganhos de capital no mercado financeiro;
- Fim da isenção para vendas de criptoativos de até R$ 35 mil mensais, com alíquota incluída em 17,5%;
- Fim da autorização dos FI-Infra, que passariam a ser tributados em 5% a partir de janeiro de 2026;
- Cobrança de 17,5% de IR sobre ações e fundos de ações, incluindo operações de day trade, a partir de janeiro de 2026, com autorizado para vendas trimestrais de até R$ 60 mil;
Governo Lula buscou outras iniciativas arrecadatórias
Além da criação e elevação de impostos, o governo federal aprovou o voto de qualidade no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). A expectativa era obter mais de R$ 50 bilhões em 2024, mas a medida gerou R$ 308 milhões, 0,55% do esperado.
O governo ainda tentou restabelecer a cobrança do DPVAT, o seguro obrigatório para veículos. Após a repercussão negativa da medida e negociações com o Congresso, ela foi revogada.
Limites econômicos e políticos
Neste ano, segundo já declarado pelo governo Lula, ainda há propostas para aumentar a alíquota sobre serviços de streaming e tributar as grandes empresas de tecnologia. A carga tributária excessiva, no entanto, pode impactar os níveis do PT nas urnas.
Luís Garcia defende que há um limite econômico e até político para o avanço na tributação. “Sem disciplina de despesas e melhoria da eficiência do Estado, aumentar tributos vira uma solução recorrente, mas de curto prazo”, afirma.
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