
Dois meses após decretar a liquidação do Banco Master, o Banco Central enfrentou um cenário inédito: pressões simultâneas do Judiciário, do Legislativo e de órgãos de controle que questionaram tanto a decisão quanto a condução do caso. A inspeção do Tribunal de Contas da União (TCU), decretada nesta sexta-feira (2), é apenas o episódio mais recente de uma crise que expõe os limites da autonomia técnica da autoridade monetária.
O Banco Master foi liquidado em 18 de novembro de 2025, após o Banco Central negar sua compra pelo Banco Regional de Brasília (BRB) em setembro. A autarquia alegou riscos excessivos e falta de documentação que comprovasse planos económico-financeiros.
A liquidação ocorreu em meio a investigações criminais. Na véspera da intervenção, o CEO Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos quando embarcou para Dubai, onde fecharia a venda da instituição para um grupo local. As investigações realizadas no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura emissões de títulos de crédito falsos — as estimativas apontam R$ 12 bilhões em ativos fraudulentos.
O esquema de fraude e “limpeza contábil”
O Master utilizou um esquema sofisticado de “limpeza contábil” envolvendo a Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários. A Reag, investigada pela Polícia Federal na Operação Carbono Oculto por suspeitas de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), era a peça-chave do artifício.
O mecanismo era simples: o Master aportava dinheiro em fundos estruturados pela Reag, que depois compravam ativos ativos do próprio banco. Na prática, era como trocar subsídios problemáticos por papéis que compensaram a saúde — um truque para mascarar a fragilidade real da instituição.
O volume dessa operação impressiona: aproximadamente R$ 11,5 bilhões. A manobra permitiu que o Banco Master mantivesse artificialmente seus índices regulatórios, ocultando um déficit patrimonial real.
Uma crise de liquidez
Mas a fraude contábil era apenas parte do problema. No dia da liquidação (18 de novembro), o Master tinha apenas R$ 4,8 milhões em caixa livre — enquanto os vencimentos imediatos eram dez vezes superiores: R$ 48,6 milhões em CDBs. Considerando os fluxos semanais, o banco acumulou R$ 120 milhões em vencimentos.
O recolhimento compulsório — depósitos que os bancos são obrigados a manter no BC — era ainda mais alarmante. A exigência era de R$ 2,53 bilhões, mas o Master havia recolhido menos de R$ 25 milhões: menos de 1% do valor devido.
Essa crise crônica de liquidez foi completamente mascarada pelos projetos contábeis que fizeram o banco parecer saudável nos balanços.
As pressões institucionais particularmente
Quando essas revelações vieram à tona, desencadearam uma ocorrência em cadeia. O Tribunal de Contas da União foi o primeiro a agir.
Na manhã de sexta-feira (2), durante o recesso de fim de ano, o TCU decretou uma inspeção na autarquia para avaliar a documentação da liquidação. A área técnica do tribunal havia identificado supostas lacunas nos documentos enviados pelo BC.
O presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, tentou minimizar a gravidade: “É um processo absolutamente comum, em que o tribunal fiscaliza o órgão regulador”. Mas a questão permanece em aberto: ainda não está claro se o TCU teria competência para anular a liquidação após avaliar a documentação.
O STF entra em cena
Enquanto o TCU avançava com a inspeção, o Supremo Tribunal Federal também se envolveu. O ministro Dias Toffoli, relator do caso, decretou de ofício uma acareação entre executivos do Master, do Banco de Brasília e representantes do BC. A medida gerou tensão imediata.
Tanto a Procuradoria-Geral da República quanto o próprio Banco Central questionaram a decisão. A PGR alegou que a acareação não poderia ocorrer antes dos investigados prestarem depoimento. O BC questionou em qual condição a instituição participaria do procedimento.
Toffoli recuou parcialmente: determinou que a Polícia Federal tomasse os primeiros depoimentos, seguidos de cuidado se necessário. O episódio evidenciou a tensão entre o Judiciário e a autoridade monetária em questões técnicas de supervisão bancária.
A mobilização no Congresso e na CPMI
No Congresso, a articulação política se intensifica. Na véspera do Ano Novo, o vice-líder da oposição na Câmara, deputado Carlos Jordy (PL-RJ), afirmou ter conseguido assinaturas suficientes para abrir uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o Mestre. O pedido será protocolado em fevereiro, na volta do recesso parlamentar.
A oposição também articula novo pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes. A razão: revelação de que o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, tinha contrato de R$ 129 milhões com o Master para atuar em defesa da instituição até 2027.
O que dizem os investigados
Enquanto as políticas de pressão avançam, as investigações criminais também prosseguem. No penúltimo dia de 2025, a Polícia Federal reuniu três figuras centrais do caso: Daniel Vorcaro (controlador do Master), Paulo Henrique Costa (ex-presidente do BRB) e Ailton de Aquino Santos (diretor de Fiscalização do BC).
Os depoimentos revelaram versões conflitantes. Vorcaro manteve postura defensiva: alegou ter sido “surpreendido” pela liquidação e que o banco estava em processo de saneamento. Segundo ele, a intervenção foi desproporcional. O executivo descartou acordo de delação premiada.
Costa defendeu sua atuação no BRB, afirmando que todas as ações foram documentadas. Ele alegou que o banco público teria tido prejuízo de R$ 2 bilhões nas negociações com o Master — uma versão que Vorcaro contestou, sem detalhar sua posição.
As defesas concordaram em um ponto: quando o Master foi liquidado, as instituições negociaram uma substituição de R$ 2 bilhões em ativos. A defesa do Mestre afirmou que havia garantias de R$ 9 bilhões sobre esse valor, além de um deságio de 30%.
A Polícia Federal marcou novos depoimentos para janeiro. Enquanto isso, a iminência da CPMI em fevereiro e os pedidos de impeachment ampliam ainda mais o escopo das controvérsias em torno da liquidação.
O risco para o sistema financeiro nacional
O caso do Master representa um ponto de inflexão. Pela primeira vez, uma liquidação bancária enfrentou questionamentos simultâneos do Judiciário, do Legislativo e de órgãos de controle — um cenário que especialistas alertam poder criar perigosos para a estabilidade do Sistema Financeiro Nacional.
A questão central é a autonomia técnica. O Banco Central, como autoridade reguladora, precisa tomar decisões rápidas baseadas na análise de risco. Mas a inspeção do TCU, a intervenção do STF em questões técnicas de supervisão bancária e a iminência de uma CPMI no Congresso criam um ambiente de incerteza. Esse cenário pode comprometer futuras decisões de liquidação ou intervenção em instituições financeiras.
As críticas são divergentes. Por um lado, questionamos os atrasos do BC diante de sinais evidentes de fragilidade do Master. Além disso, defensores da autarquia acusam o Judiciário e o Legislativo de terem precipitado a liquidação, impedindo uma solução de mercado — como a compra pelo BRB. Essa polarização reflete a dificuldade de avaliar decisões complexas em tempo real, quando informações ainda estão sendo processadas.
Para o sistema financeiro, o precedente é preocupante. Se as liquidações bancárias passarem a ser alvo de questionamentos judiciais e parlamentares rotineiros, o BC pode enfrentar pressões para postergar decisões críticas — aumentando os riscos sistêmicos. Inversamente, se uma autarquia agir com excessiva cautela para evitar controvérsias, pode deixar instituições frágeis operando por mais tempo, prejudicando depositantes e credores.











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