
Ao olhar para o eleitorado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) apostam no discurso conservador, na segurança pública e no voto feminino como estratégia para reduzir a vantagem petista no Nordeste. Em sua primeira agenda pré-eleitoral na região, no final da semana passada, o parlamentar visitou Natal (RN) e João Pessoa (PB).
No segundo turno das eleições de 2022, Lula conseguiu 69,34% dos votos válidos, contra 30,66% de Jair Bolsonaro (PL) no Nordeste – única região do Brasil em que o petista obteve vantagem sobre o então mandatário.
A estratégia ficou evidente no tom adotado pelo senador durante a agenda em Natal. Em discurso aos apoiadores, Flávio reforçou a centralidade da segurança pública como eixo de diferenciação em relação ao governo petista.
“Essa eleição vai ser sobre qual o caminho a gente quer escolher pro Brasil nos próximos 50 anos”, afirmou, ao contrapor o que chamou de “caminho da prosperidade” ao de um governo que, nas palavras dele, “solta marginal da cadeia”.
Nesse contexto, o pré-candidato do PL introduziu um discurso mais duro contra o crime organizado e a criminalidade em geral. Ele defendeu o endurecimento das leis penais, com prisão prolongada para lideranças criminosas, e disse que facções, como o PCC e o Comando Vermelho, deveriam ser tratadas como organizações terroristas.
“Marginais que comandam organizações criminosas […] têm que ficar mofando na cadeia”, disse, ao criticar políticas de desencarceramento e associadas ao aumento da insegurança.
Flávio também dirigiu parte relevante da fala ao eleitorado feminino, ao explorar a pauta da violência contra a mulher. O senador afirmou que um eventual governo alinhado ao seu campo político buscaria prender agressores com mais rapidez e suportar punições.
“Vocês querem um governo que se preocupe de verdade com as mulheres? Que trabalham para colocar agressor de mulher no mesmo dia preso?”, questionou, ao mencionar ainda o aumento de casos de feminicídio na gestão atual.
O parlamentar também buscou dialogar com metas econômicas e do cotidiano, como emprego e custo de vida, ao defender redução de impostos e menos burocracia para pequenos empreendedores. “Vocês querem um governo que vai reduzir o imposto, que vai facilitar a vida de quem quer trabalhar?”, disse.
Além do conteúdo, a forma também indica uma tentativa de adaptação ao público local. Flávio apareceu vestindo uma camiseta amarela com a frase “Nordeste é solução”, em gesto simbólico para suavizar a isolada na região e fortalecer a mensagem de aproximação com o eleitor nordestino.
Estratégia mira “fissura” na hegemonia petista no Nordeste
Para o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a manobra de Flávio Bolsonaro segue na esteira do desgaste do lulopetismo no Nordeste, tradicional reduto eleitoral do partido.
“A hegemonia tradicional do Partido dos Trabalhadores nessa região […] começa a fraquejar, começa a dar sinais de resfriamento”, afirma.
Gomes aponta que fatores como frustração com políticas públicas, aumento do custo de vida e escândalos recentes para esse cenário. “A imagem do lulopetismo fica desgastada”, afirma, ao citar insatisfação com programas sociais e o impacto de denúncias de corrupção.
Na avaliação do cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec de Belo Horizonte, a movimentação de Flávio Bolsonaro na região segue uma estratégia já testada nas eleições anteriores: reduzir a diferença de votos de Lula no Nordeste, ainda que sem necessariamente vencer.
“O Flávio Bolsonaro continua a estratégia do pai dele […] de tentar diminuir a diferença de Lula em relação a ele. Bolsonaro atuou muito no Nordeste, mas não foi suficiente”, afirma.
Segundo Cerqueira, o cenário atual pode favorecer essa tentativa, especialmente por conta de uma mudança na percepção do eleitor nordestino. Ele aponta que, na eleição passada, muitos votantes projetaram que Lula repetiria o desempenho de seus governos anteriores.
“Eles lembraram do Lula de até 2010 e imaginaram que ele faria aquilo de novo, só que as condições para isso não foram dadas”, diz.
PL aposta em palanques mais organizados no Nordeste
Segundo uma fonte da cúpula do PL, a expectativa é de que a campanha de Flávio Bolsonaro possa ter um melhor desempenho no Nordeste com palanques mais consistentes em relação ao pleito de 2022, contando com aliados de outros partidos e filiando políticos de peso na região.
Para a disputa pelo governo da Paraíba, por exemplo, o PL filiou o senador Efraim Filho (PB) e contará com o ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga na chapa do Senado Federal. Além disso, o partido também conta com a presença do deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), líder da oposição na Câmara dos Deputados, contribuindo para a campanha.
No Rio Grande do Norte, o estado natal do senador Rogério Marinho (PL), o coordenador nacional da campanha de Flávio, o PL filiou o ex-prefeito de Natal Álvaro Dias para a disputa ao governo estadual e terá o ex-prefeito de São Tomé e ex-presidente da Federação dos Municípios (Femurn), Babá Pereira (PL), como vice.
Para o Senado, a composição inclui o senador Styvenson Valentim (PSDB) e o militar Coronel Hélio (PL).
Críticas à segurança pública no Nordeste reforçam o discurso de “lei e ordem”
Para o cientista político Paulo Kramer, o discurso de Flávio Bolsonaro na região encontra respaldo em críticas mais amplas à condução das políticas de segurança nos horários alinhados ao PT no Nordeste.
Segundo ele, há uma visão permissiva em relação à criminalidade que contribui para o agravamento da insegurança. “Os governos lulopetistas do Nordeste refletem o preconceito histórico do partido contra a filosofia e a prática de Lei e Ordem”, afirma.
Para Kramer, essa abordagem “põe em risco a segurança do cidadão”, ao priorizar, segundo ele, uma agenda de direitos humanos voltada para as violações.
O especialista também sustenta que esse cenário impacta de forma mais intensa as camadas mais pobres da população. “São os pobres, aqueles mais prejudicados e vulneráveis diante da “lei do cão” imposta pela violência das facções criminosas”, diz.
Na avaliação dele, a crítica explorada por Flávio Bolsonaro dialoga diretamente com essa realidade social.












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