
Além da blindagem institucional graças ao sigilo absoluto determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as investigações do Banco Master, o governo Lula pode ser beneficiado mais uma vez com os desdobramentos do caso. A enxurrada de recursos — R$ 40,6 bilhões — que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) está liberando tende a ser realocada em um destino bastante conservador: os títulos públicos.
Caso a entrada de recursos do FGC — que possa ser ainda maior, devido à liquidação do Will Bank — eleve a procura por títulos do Tesouro, seus preços tendem a subir. O aumento nas aquisições, por sua vez, incentivaria a caixa do governo Lula, que pode se beneficiar desse cenário no curto e até no médio prazo.
Contudo, as próprias dinâmicas do mercado podem preparar uma armadilha mais futura: a queda na confiança provocada pela liquidação do Master tende a abalar um dos pilares que embasam as decisões sobre a taxa básica de juros, a Selic. Se isso ocorrer, a queda da taxa de juros, tão almejada pelo governo, pode exigir mais tempo para se concretizar.
O professor de Administração da ESPM, Jorge Ferreira, avalia que a crise no mercado de CDBs inflados da Master atrapalha o apetite dos investidores por produtos de renda fixa privada. Dessa forma, o investidor que recebeu o ressarcimento do FGC tende a reaplicar esses recursos em títulos que considera mais seguros. Nesse cenário, há duas opções principais: adquirir CDBs de grandes bancos, considerados mais seguros, ou investir em títulos públicos.
“O investimento mais conservador que temos hoje é o título do Tesouro Nacional, porque ele traz a solidez do erário público como garantia, como mitigador de riscos”, afirma. Ou seja, quem garante a solvência para honrar os títulos, no vencimento, é a própria Fazenda Pública. Assim, apenas uma quebra do próprio Tesouro poderia, em tese, levar a uma crise de liquidez e ao não pagamento de rendimentos aos seus credores.
Aplicações podem cobrir déficits do governo no curto prazo
Quando um investidor compra um título público, ele está emprestando seu dinheiro, mediante juros, para a Fazenda Pública. Ainda que esses recursos não figurem no resultado primário — que correspondem à diferença entre arrecadação e gastos —, sua entrada nos cofres públicos pode ser utilizada pelo governo para cobrir déficits orçamentários, realizar investimentos públicos e administrar a caixa, por exemplo.
Como o governo Lula tem enfrentado dificuldades recorrentes para fechar as contas, recorrendo à criação de novos impostos e, além disso, a gastos extraordinários contabilizados fora da meta para evitar o estouro do déficit previsto nos orçamentos anuais, a chegada de recursos seria bem-vinda. Ainda mais em um ano eleitoral, em que o governo planeja um pacote de “bondades” pensando na reeleição.
Outro ponto favorável ao governo é que o excesso de demanda por títulos públicos tende a reduzir, no prazo médio, o custo de captação. Isso significa que o Tesouro poderá oferecer remunerações menores aos credores, ou seja, reduzir os juros pagos na troca de seus papéis.
Bancos e consumo podem dividir o destino do FGC
Há, no entanto, dois poréns. Na avaliação da economista-chefe do GEP Brasil, Tânia Gofredo, a migração dos clientes do Master para o Tesouro pode não ocorrer de forma automática. Segundo ela, os grandes bancos também têm capacidade de atrair os clientes que receberam a restituição do FGC, em razão da solidez de suas carteiras e da confiabilidade construída ao longo dos anos.
Além disso, Jorge Ferreira aponta uma terceira destinação possível para esses recursos: o consumo. Na avaliação do professor, a tendência predominante é a reaplicação do dinheiro recebido do FGC, mas parte dos investidores pode optar por utilizá-lo em aquisições, viagens, reformas, entre outros gastos. A entrada desses recursos no mercado, ao ampliar o volume de moeda em circulação, em tese pode impulsionar a inflação.
Essa pressão inflacionária, por sua vez, poderia levar o Comitê de Política Monetária (Copom) a manter a Selic em patamar elevado, o que é justamente o que o governo quer evitar. Para Ferreira, no entanto, o caso Master pode contribuir para a manutenção da taxa básica de juros, mas por outra razão.
Caso Master pode prejudicar planos de governo para a Selic
Ainda que não tenha se configurado como uma crise sistêmica, capaz de abalar o Sistema Financeiro Nacional como um todo, a crise do Banco Master afetou a modificação de certos setores e produtos do mercado financeiro. Esse abalo na confiança pode influenciar a manutenção da taxa de juros.
Ferreira explica que, na definição da Selic, quatro pilares influenciam as decisões do Copom:
- a inflação, que fechou 2025 em 4,26%, abaixo do limite superior da meta (4,5%);
- o mercado de trabalho aquecido — em novembro do ano passado, o IBGE registrou menor taxa de desemprego (5,2%) desde o início da série histórica;
- o risco cambial, que reflete incertezas fiscais e a volatilidade do real frente ao dólar;
- e a desancoragem das expectativas, ponto em que o abalo de confiança decorrente da crise do Mestre possa gerar resultados.
A desancoragem das expectativas, segundo o professor, refere-se à persistência da inflação inercial — olhando para que os agentes econômicos (empresas, trabalhadores e consumidores), com base na inflação passada, projetam a inflação futura. Essa projeção leva a reajustes automáticos de preços e contratos, seja pelo temor de novas altas, seja pela falta de confiança na estabilização dos preços. Por se tratar de uma percepção, choques de confiança no mercado também influenciam esse processo.
“A confiança abalada no mercado financeiro poderia intervir nesse item da desancoragem das expectativas que o Banco Central monitorou durante todo o ano de 2025. E poderia, sim, fortalecer a visão da autoridade competente de que os juros precisam ser mantidos em um patamar elevado por mais tempo”, avalia.
Apesar da narrativa, o governo Lula tem responsabilidade direta pelos juros altos
Como apurou a Gazeta do Povoespecialistas em contas públicas e política fiscal apontam que um dos fatores que são recomendados para a manutenção da taxa de juros elevada é a ausência de ajustes fiscais estruturais.
Mesmo com registros de arrecadação e mais de R$ 337 bilhões contabilizados fora da meta, o governo continua gastando mais do que arrecada. Os déficits aumentados aumentam a dívida pública que, por sua vez, pressionou os juros, formando um círculo vicioso.
Na narrativa da equipe econômica de Lula, no entanto, os responsáveis pelo aumento da dívida seriam outros: o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e os juros elevados. Na segunda-feira (12), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a situação da dívida pública decorre do aumento da taxa de juros, uma vez que os déficits estariam em trajetória de redução.
Narrativas à parte, a previsão é de que o Copom mantenha a taxa básica de juros de 15% na próxima reunião, em 28 de janeiro. Jorge Ferreira ressalta que já houve consenso no mercado de que o Comitê não reduziria a Selic nesta reunião — a expectativa é de que o início do ciclo de cortes ocorra a partir de março.
Se, de fato, a crise do Mestre se tornar mais um fator de pressão para a manutenção dos juros altos, o governo tenderá a injetar mais recursos na caixa, ampliando a margem financeira em um ano eleitoral, o que contribuirá diretamente para a manutenção da Selic elevada e para a proteção fiscal do país.












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