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Dosimetria ainda enfrenta obstáculos de Lula e STF

Redação Por Redação
7 de janeiro de 2026
Em Notícias
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Dosimetria ainda enfrenta obstáculos de Lula e STF
Twitter1128254686redacaobcn@gmail.com


Aprovado no fim de 2025 pelas duas Casas do Congresso após articulação da direita e da centro-direita, o projeto que altera regras para o cálculo das penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro, o chamado PL da Dosimetria, abre a perspectiva de redução significativa do tempo de prisão e progressão de mais rápida de regime, com efeito nos próximos meses.

O avanço legislativo, porém, ainda precisa superar barreiras políticas e jurídicas relevantes, começando pelo veto integral do texto já anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) um dia depois da aprovação pelo Senado. Depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) será questionado sobre a constitucionalidade da nova lei e avaliará sua aplicação caso a caso.

Lula transformou o veto em gesto político: deverá confirmar o veto em cerimônia nesta quinta-feira (8), no Palácio do Planalto, para marcar o terceiro aniversário dos atos ocorridos na Praça dos Três Poderes e que terminaram com a depredação das sedes do Executivo, Legislativo e Judiciário. Convidados, os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não confirmaram a presença. Ambos ajudaram a costurar o acordo para aprovar o texto.

Nos bastidores do governo, houve divergências sobre o momento do anúncio do veto. Parte dos aliados defendeu a assinatura no próprio 8 de janeiro, por seu simbolismo e visibilidade política; outros sugeriram adiar a decisão para reduzir o atrito com o Congresso. Lula, no entanto, optou pelo tom da campanha eleitoral proposta pela área de comunicação do governo.

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Senado e Câmara decidem o veto de Lula à dosimetria

O projeto da dosimetria foi aprovado no Senado com ajustes no texto aprovado dias antes pela Câmara para não favorecer grupos infratores, alterando critérios de cálculo das penas e de progressão de regime apenas para os condenados do 01/08. Confirmado o veto presidencial, a apreciação do seu veto caberá ao Congresso, em uma sessão conjunta.

Para derrubá-lo, será necessária maioria absoluta em ambas as Casas — ao menos 41 senadores e 257 deputados —, com contagem separada de votos. Caso Senado ou Câmara não alcance o número mínimo, o veto é suspenso. A dosimetria passou na Câmara com 291 votos sinceros e 148 contrários, além de uma abstenção. Já no Senado, foram 48 a favor e 25 contra.

O argumento de “correção de excessos” na dosimetria encontrou apoio além da direita, alcançando parlamentares de vários partidos, dificultando uma reversão articulada pelo Palácio do Planalto, que queria ganhar tempo para tentar tirar apoio ao texto. A tendência de derrubada do veto, contudo, segue firme. PT e PSB já acionaram o STF para tentar barrar o projeto.

O texto aprovado restringe os efeitos da redução de pena a crimes cometidos no contexto dos atos de 8 de janeiro, afastando o benefício a condenados por outros delitos. Ainda assim, os juristas alertam que, mesmo se o veto cair e o STF considerar uma nova lei constitucional, seu pedido exigirá uma análise de caso a caso, após a Corte receber pedidos de revisão das defesas.

Com a nova lei em vigor, Bolsonaro poderá ser solto até o início de 2029

Caberá ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, recalcular penas, tempos de prisão e critérios de progressão, especialmente diante da incorporação e da interpretação dos crimes chamados contra a democracia. O processo tende a ser burocrático, sujeito a recursos e a diferentes entendimentos no tribunal, o que pode retardar eventualmente algumas soluções.

Entre os beneficiários estaria o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos e três meses de prisão. Pelas regras atuais, ele teria de cumprir cinco anos e 11 meses em regime fechado. Com a dosimetria, teria havido tomada de penas de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, além de promoções progressistas.

Nesse cenário, Bolsonaro poderia cumprir três anos e três meses em regime fechado, com possibilidade de redução ainda maior — até dois anos e três meses — conforme a interpretação da norma, o que permitiria sua saída da prisão no início de 2029. A Lei de Execuções Penais prevê progressão de regime para réus primários condenados por crimes sem violência ou grave ameaça após o cumprimento de 16% da pena, percentual que sobe para 25% nos casos com violência.

O projeto estende o patamar mais brando aos condenados de 8 de janeiro, inclusive ao ex-presidente, o que explica parte da controvérsia jurídica em torno da medida. Especialistas ressaltam, no entanto, a legitimidade do Congresso para definir novas configurações para casos específicos.

Lei da dosimetria é reconhecimento de excessos do STF, diz especialista

Para o cientista político Ismael Almeida, a aprovação do projeto vai além do ajuste técnico e representa um marco político e institucional ao considerar excessos nas condenações. Segundo ele, o texto não concede anistia nem extingue punições, mas reafirma princípios constitucionais como proporcionalidade e individualização da pena, evitando a soma automática de avaliações e a equiparação entre líderes e participantes ocasionais.

Ao aprovar a Lei da Dosimetria, afirma Almeida, o Congresso admitiu que o padrão punitivo adotado no caso de 8 de janeiro ultrapassou limites de preços, sem negar o Estado de Direito. “Ainda que insuficiente para reparar todas as injustiças, a iniciativa tem peso simbólico ao reabrir o debate sobre a pacificação nacional. Ele aponta a incoerência de setores que rejeitam qualquer correção de condenações, apesar de terem sido beneficiados no passado pela anistia, preservada pela Constituição”, diz.

Advogados de condenados têm expectativas divergentes para a dosimetria

A advogada Carolina Siebra, membro da Associação dos Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Asfav), mantém expectativas otimistas quanto à derrubada do veto na primeira sessão conjunta do Congresso, prevista para fevereiro ou março, o que permitiria efeitos imediatos da nova lei.

Para ela, a dosimetria é um alento concreto para familiares de réus que seguem e “nunca voltaram para casa”. Carolina considerou pouco provável que o plenário do STF barrasse uma proposta, citando informações de bastidores segundo as quais o próprio ministro Alexandre de Moraes teria participado da elaboração do texto, o que reforçaria a leitura de que a medida busca corrigir distorções sem configurar anistia.

Já o advogado Cláudio Caivano, que atua na defesa de réus de 8 de janeiro, vê o projeto como portador de “vício de origem”. Segundo ele, a iniciativa foi articulada por políticos à margem das negociações centrais — como Aécio Neves (PSDB), Michel Temer (MDB) e Paulinho da Força (Solidariedade) — em parceria com membros do STF, criando uma expectativa irreal de soltura imediata.

Caivano afirma que jamais apoiou a dosimetria e prevê que o veto presidencial será explorado como espetáculo político no aniversário do 8 de janeiro. Na sua avaliação, o resultado prático tende a ser limitado: dos cerca de 155 condenados ainda presos, apenas 80 poderiam ser beneficiados, com possíveis solturas a partir de junho ou julho, e outros 20, no máximo, de forma imediata. “É uma vitória com sabor de derrota”, crítica.

Para ele, a anistia continua necessária, mas a aprovação da dosimetria criou um obstáculo político adicional para retomar o tema nesta legislatura, já que os regimentos podem barrar a reapresentação da matéria. Caberá ao presidente da Câmara decidir se o assunto já foi apreciado. “Fomos enganados e agora é tarde”, opina.

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Tags: 8 de janeiroaindaAlexandre de MoraesanistiaDavid AlcolumbredemocraciadosimetriaEleições 2026enfrentahugo mottaJairBolsonarolulaobstáculospalácio do planaltoSenadoSTF
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