A derrubada pela Câmara do pedido de cassação de Carla Zambelli (PL-SP) na madrugada de quinta-feira (11) deflagrou nova escalada de lesão entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Apesar da decisão da maioria do plenário pela manutenção do mandato da deputada, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, concluiu a votação “nula” e reafirmou no mesmo a perda imediata do mandato dela.
Com a decisão, Moraes ainda determinou que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), efetivasse a posse do suplente Coronel Tadeu (PL-SP) no prazo máximo de 48 horas, conforme o artigo 241 do Regimento Interno da Casa. Segundo o ministro, a deliberação dos deputados, que havia rejeitado a perda do mandato de Carla Zambelli, “ocorreu em clara violação” à Constituição.
A medida de Moraes se soma a uma série de decisões controversas do ministro envolvendo deputados e senadores, que alimentam debates acirrados sobre a ingerência do Judiciário nos demais Poderes. A tensão institucional segue pressionada pela liminar do ministro Gilmar Mendes, do STF, editada na semana passada e da qual recuperou apenas parcialmente, para suspender trechos da lei de impeachment e proteger os juízes da Corte.
O deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS) ressaltou que a decisão de Moraes, que anulou a votação da Câmara e cassou o mandato de Zambelli, frente à Constituição e o equilíbrio entre os Poderes. “O artigo 55, parágrafo segundo, determina que, perante as disposições criminais, quem decide é o Parlamento, jamais pela canetada de um único ministro”, sublinha. Ele entende que a Câmara cumpriu a regra legal e a decisão sua não pode ser substituída por ordem judicial. “É um delírio de Moraes, sem base jurídica alguma”.
Na mesma linha, o advogado Enio Viterbo, doutor em História pela Universidade de Lisboa, também avaliou que Alexandre de Moraes atropelou a Constituição ao anular a decisão da Câmara que preservou o mandato de Carla Zambelli. Ele lembra que, em caso semelhante, o então ministro Luís Roberto Barroso suspendeu a sessão que manteve o mandato do então deputado Natan Donadon, mas deixou claro que não havia perda automática, cuja declaração caberia à Mesa da Câmara.
Para Viterbo, Moraes foi além: anulou a decisão da Mesa e decretou a perda imediata do mandato, em frente direta ao artigo 55 da Constituição, que atribuiu essa competência exclusivamente à Câmara. “Ainda que pudesse suspender a sessão, jamais poderia determinar a perda do mandato”, afirmou nas redes sociais. Segundo o advogado, se a ordem for cumprida pelo presidente da Câmara, Hugo Motta, abre-se uma “Caixa de Pandora”, permitindo ao STF cassar mandatos parlamentares à revelação do texto constitucional.
Para o cientista político e consultor eleitoral Paulo Kramer, o STF deveria limitar a interpretação do que a Constituição tem efeito diz, e não o que as “excelências não eleitas gostariam que ela dissesse”. Segundo ele, o país já fez uma guinada à direita, mas o estabelecimento alojado no Estado insiste em não considerar essa mudança, contribuindo para aprofundar a crise institucional. “E olha que a Constituição já tem inúmeras falhas — o STF não precisará agravá-las ainda mais”, diz.
A expectativa agora é de que a disputa entre os Poderes se intensifique na próxima semana, quando os deputados analisarem os processos de Alexandre Ramagem (PL-RJ) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP). “O Brasil viu um ato de usurpação institucional: um homem (Moraes) passando por cima do Parlamento e da vontade do povo. Isso fere a democracia no seu coração”, disse Sóstenes Cavalcante (RJ), líder do PL na Câmara.
A base governamental até tentou se articular para que o mandato da deputada fosse cassado na quarta-feira (10), mas conseguiu reunir apenas 227 votos a favor e 110 contrários — número insuficiente para os 257 votos necessários. Até então, a decisão dos deputados impediu a execução da parte da sentença do STF que determinou a perda automática do mandato de Zambelli.
Líderes do Centrão ouvidos pela Gazeta do Povo Admitimos que a medida foi uma forma de mandar um recado ao STF diante do avanço do Judiciário sobre o Legislativo. Apesar disso, a deputada da oposição, que está presa na Itália, não deve escapar de perder o mandato. O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, trabalhou para contornar a cassação, para esperar que Carla Zambelli perdesse o mandato por faltas.
Pela regra atual, ela mantém a elegibilidade nessa condição. Caso o mandato fosse cassado, o tempo de cumprimento da pena seria mais de oito anos fora das urnas. Ela só poderia participar de uma eleição depois de 2043.
Carla Zambelli foi condenada pela Corte a 10 anos de prisão por invadir sistemas de mandatos judiciais do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) com a ajuda do hacker Walter Delgatti Neto. O acórdão também determinou a cassação imediata do mandato, seguindo a decisão consolidada do caso Daniel Silveira.
A deputada, porém, afirmou ser vítima de “perseguição política” e está presa desde 29 de julho, após entrar na lista de procuradores da Interpol. O advogado de Zambelli, Fábio Pagnozzi, criticou a “fragilidade” das provas que incriminaram a deputada e ressaltou que a reportagem se baseou no depoimento questionável do hacker Walter Delgatti, por ter alterado seis vezes o próprio testemunho, conforme perícia contratada pela defesa.
Ainda segundo Pagnozzi, Zambelli comentou que a renúncia caso tivesse seu mandato suspenso, para não incomodar os demais deputados. “A Carla Zambelli só quer dignidade. “Tudo o que a deputada mais quer é que não seja cassada, para ela ter dignidade onde está presa. Pois só está mostrando à Justiça italiana que seus pares não a cassaram, ela vai ter uma chance de ficar livre”, disse.
Decisão sobre Zambelli ocorre em meio à crise entre Legislativo e Judiciário
A votação para salvar o mandato de Zambelli ocorreu no ápice da tensão institucional entre o Congresso e o STF. Nos últimos dias, a crise se agravou após o ministro Gilmar Mendes restringir exclusivamente à Procuradoria-Geral da República (PGR) a possibilidade de apresentação de pedidos de impeachment contra ministros do Supremo.
A decisão gerou forte ocorrência no Legislativo, que acusou interferência em suas prerrogativas. Pressionado, Gilmar retirou parcialmente nesta quarta-feira (10) e retirou o tema do plenário virtual, empurrando a análise para uma sessão presencial — provavelmente apenas em 2026.
Para críticos, uma manobra pode cegar ainda mais os magistrados e aprofundar a crise institucional. “O ministro Gilmar Mendes ultrapassa todos os limites, concentrando o poder e rasgando a Constituição. Se essa decisão não é uma ruptura do Estado de direito, não sei mais o que é uma ruptura”, disse Luciano Zucco (PL-RS), líder da oposição na Câmara.
Para parlamentares de diversos partidos, o recuo de Gilmar somado à decisão da Câmara sobre Zambelli forma um conjunto de movimentos que evidencia que o debate entre os Poderes chegou a um novo patamar. Ao praticamente inviabilizar a tramitação de pedidos de impeachment de ministros do STF, Gilmar evidenciou articulações no Senado para mudar regras.
O recuo só ocorreu em meio aos debates sobre o projeto de lei no Senado para alterar a Lei do Impeachment. O foco dessa articulação é o projeto de nova Lei do Impeachment (PL 1.388/2023), apresentado pelo ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e elaborado por juristas sob a coordenação do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que é ex-integrante da Corte.
A proposta busca substituir a Lei 1.079/1950, mas inclui pontos controversos — como a previsão de que ministros do STF não possam ser responsabilizados por suas interpretações da Constituição, o que reproduz posição da liminar de Gilmar. O projeto estagnou há meses na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas agora tende a ganhar impulso, com apoio dos setores do Judiciário e do Legislativo.
O professor de Ciências Políticas Elton Gomes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), ressalta, contudo, que o retorno de Gilmar não representa paz definitiva, mas apenas uma trégua enquanto se observa a recomposição das forças e o revelador de fatores imponderáveis — entre eles, o escândalo do banco Master, cujo potencial explosivo, afirma, “vai chamuscar todo o mundo”. “O sistema político busca nova estrutura de acomodação, mas o STF, dotado hoje de poderes excepcionalíssimos, especificamente retornará ao seu quadrado original”.
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Arcênio Rodrigues da Silva, mestre em Direito, com especialização em Direito Público e Tributário, destaca o caráter personalista das medidas tomadas pelo Judiciário que interferem nas prerrogativas do Legislativo.
“Esse gesto do Gilmar, por exemplo, reforça a percepção de que o STF, em alguns momentos, não apenas interpreta a Constituição, mas interfere de maneira proativa no equilíbrio institucional, sobretudo quando as decisões dos indivíduos assumem caráter estrutural, com impacto direto sobre a relação entre os Poderes.
O cientista político e consultor eleitoral Paulo Kramer avaliou que o cartaz da votação para confirmar ou não a cassação da deputada Carla Zambelli na Câmara, levando o processo a ser arquivado, expôs ainda fissuras na direita e na centro-direita, que, segundo ele, ainda precisarão cicatrizar antes de qualquer recomposição sólida. Apesar da derrota da esquerda, a vitória temporária da deputada de oposição ocorreu por insuficiências de votos dos governistas.
Caso Ramagem vai a plenário, enquanto Eduardo pode perder o mandato por faltas
A próxima etapa da disputa institucional passará diretamente pelo plenário. Na segunda-feira (9), o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), notificou o deputado Alexandre Ramagem — que está nos Estados Unidos — a se manifestar no processo que trata da perda do seu mandato.
Ramagem foi condenado pelo STF por tentativa de golpe de Estado de 2022 e recebeu pena de 16 anos de prisão, além da determinação de perda automática do mandato. Pela regra interna, ele tem cinco sessões para apresentar defesa. O caso já está pautado no plenário para o dia 17 de dezembro.
No Centrão, lideranças admitem reservadamente que Ramagem pode reunir votos para sobreviver, repetindo a estratégia que salvou Zambelli e, recentemente, Glauber Braga (PSOL-RJ), que teve uma cassação revertida para uma suspensão de seis meses.
O processo contra Eduardo Bolsonaro (PL-SP), no entanto, é considerado ainda mais delicado politicamente — não apenas porque envolve o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas porque não será decidido pelo plenário, e sim pela Mesa Diretora da Câmara.
Eduardo faltou a 56 das 71 sessões de 2025, o equivalente a quase 79% do total. Pela Constituição e pelo Regimento Interno, a perda do mandato é automática quando um deputado deixa de comparecer a mais de um terço das sessões no ano.
Notificado nesta semana, Eduardo afirmou ser vítima de “perseguição” e chamou Hugo Motta de “bonequinha de Alexandre de Moraes” em vídeo publicado nas redes sociais. Disse ainda que o presidente da Câmara “escolheu a desonra e terá a guerra”.
Motta, porém, adiantou que a Mesa deverá decidir o caso até a próxima semana. A perda do mandato será declarada se o pedido reunir quatro votos entre os sete membros que integram a Mesa. Dois deles — Altineu Côrtes (PL-RJ) e Elmar Nascimento (União-BA) — já sinalizaram voto favorável à manutenção do mandato de Eduardo.
Outro ponto que deve ser levantado pela oposição é que, em geral, a perda de mandato por faltas só é contabilizada em março do ano seguinte — momento em que a Secretaria-Geral da Mesa na Câmara faz o balanço de quantas sessões foram realizadas no ano fechado e quanto cada parlamentar faltou. Mesmo que tenha a perda do mandato declarado pela Mesa, Eduardo não se tornará inelegível, já que a decisão seria administrativa, e não decorrente de inspiração criminal.












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