
O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à reta final carregando uma marca trágica para o setor produtivo. Em meio ao caos fiscal, juros excessivos, crédito dificultado e famílias divididas, o Brasil alcançou em 2025 o maior número de recuperações judiciais de sua história.
A onda de balanços negativos e a importância financeira de empresas nacionais de varejo e da indústria se transformaram em um problema para a campanha de Lula à reeleição. Eles contradizem o discurso governamental de ótimo momento para a economia brasileira.
Levantamentos de consultorias como RGF & Associados e Serasa Experian mostram que 5,3 mil empresas encerraram 2025 sob proteção judicial para renegociar dívidas, salto de 24% em relação ao ano anterior. Só no último trimestre, 510 pedidos foram registrados, com R$ 40 bilhões em dívidas.
O cenário atingiu muitos setores dependentes de crédito e consumo das famílias, como varejo, vestuário, móveis e brinquedos. Marcas associadas à estabilidade empresarial passaram a simbolizar a fragilidade financeira do ambiente econômico brasileiro e a crise existencial no setor produtivo.
Oposição destaca quebradeira de empresas acima da pandemia e Dilma
Parlamentares da oposição afirmam que o governo criou as condições para o ambiente hostil ao setor produtivo, marcado por insegurança regulatória, aumento da carga tributária, expansão de gastos públicos, juros persistentemente elevados e baixa confiança dos investidores.
Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado, rebateu nas redes sociais o discurso otimista do governo sobre a economia, lembrando que o setor produtivo amarga o “elevado custo do dinheiro” e a irresponsabilidade fiscal. “A inadimplência e as recuperações judiciais batem registros”, diz.
Para o deputado Marcel van Hattem (Novo-RS), dados de mercado mostram explosão de pedidos de recuperação judicial a partir de 2025, superando largamente as crises econômicas de 2016 e da Covid-19. “É mais fácil uma empresa sobreviver à pandemia do que um governo petista”, protestou.
Lula interrompeu ciclo de queda de recuperações judiciais desde 2017
O atual mandato de Lula encerrou o ciclo de queda no número de empresas em recuperação judicial, iniciado após a gestão Dilma Rousseff (PT). Em 2014, eram 828. O número disparado e chegou a 1.863 em 2016, auge da recessão, da crise fiscal e da desconfiança que levou à queda da petista.
Após esse pico, houve melhora gradual. No governo Michel Temer (MDB), os números recuaram para 1.420 em 2017 e 1.408 em 2018. O indicador de evolução cedendo no governo de Jair Bolsonaro (PL): 1.387 em 2019, 1.179 em 2020 e 891 em 2021, apesar dos impactos da pandemia.
Em 2022, último ano do governo passado, o país atingiu o menor patamar da série recente, com 833 empresas em recuperação judicial. A reversão começou a partir de 2023, já na gestão Lula. O número saltou para 1.405 naquele ano, avançou para 2.273 em 2024 e explodiu para 5.280 em 2025.
Trata-se de uma alta de 276% em relação ao início do atual governo e do maior nível da série histórica apresentada, situação inversa a de 2022. O mercado espera que até 8,3 mil empresas possam falir este ano, trazendo agravamento da crise de crédito, da inadimplência e do custo financeiro.
Gigante do varejo brasileiro, Pão de Açúcar vê prejuízos e dívidas
O grupo das redes Pão de Açúcar e Extra está entre os casos mais emblemáticos dessa agonia. O GPA entrou em recuperação extrajudicial para renegociar R$ 4,5 bilhões em dívidas, após sucessivos prejuízos, perda de valor de mercado e geração de caixa insuficiente para efetuar operações.
A situação ganhou peso simbólico porque o GPA já foi considerado uma potência do varejo sul-americano. O balanço de 2025 trouxe alerta formal sobre risco à continuidade operacional do grupo. Os analistas atribuem uma crise à combinação de juros altos, pressão financeira e fracasso de estratégias.
Outra gigante atingida foi a Bombril, uma das marcas mais conhecidas da indústria nacional. A empresa pediu recuperação judicial pressionada por contingências tributárias bilionárias e dificuldades acumuladas ao longo de anos. O passivo relacionado pela companhia gira em torno de R$ 2,3 bilhões.
Estrela, símbolo dos brinquedos brasileiros, luta pela sua sobrevivência
A crise afetou outras empresas notáveis como Brinquedos Estrela, Tok&Stok e Coteminas. No caso da Estrela, dona de sucessos históricos como Banco Imobiliário e Autorama, a atenção é atribuída ao crédito caro, retração do consumo e troca de brinquedos tradicionais pelo entretenimento digital.
Na esfera pública federal, a tragédia é ainda maior. Os Correios acumularam prejuízo de R$ 8,5 bilhões apenas em 2025 e recorreram a operações de crédito com garantia do Tesouro Nacional para seguir com investimentos. O estado sofre perda de competitividade, alta de custos e atraso tecnológico.
Colapso empresarial prova piora geral da economia, alertam analistas
Segundo analistas, o avanço registrado nas recuperações judiciais expôs não apenas falhas de gestão, mas, sobretudo, limitações do ambiente econômico. Enquanto o governo aponta geração de empregos e controle relativo da inflação, as empresas criticam os gastos públicos e a insegurança regulatória.
O consultor financeiro Vandyck Silveira acredita que o governo Lula 3 contribuiu para acelerar um modelo de gestão populista que levou à derrocada da Argentina após anos de despesa desenfreada e ao colapso financeiro de países da zona do euro em 2008, puxado pela sigla PIIGS, de Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha.
“Há uma lei inviolável da economia: nenhum país pode gastar mais do que arrecadação de forma crônica. Quando faz isso, a lei da gravidade econômica incide e traz os governos de volta para a Terra. Não aprenda com os erros e as crises do passado. A disputa pelo poder está acima de tudo”, diz.
Especialista vê “cenário desesperador” para próximo mandato presidencial
O conselheiro de empresas Ismar Becker avaliou que “razões matemáticas” indicavam a atual onda de falências e recuperações judiciais. Segundo ele, o Lula 3 acelerou gastos públicos antes mesmo da posse, até desembocar no recém-lançado “pacote de retenção eleitorais” de R$ 200 bilhões.
“Os juros tendem a permanecer em patamar absurdo e a inflação, ainda que mascarada, já aponta para 5%”, afirma. Na avaliação de Becker, quem vencer a eleição presidencial terá de encarar “a hora da verdade” em 2027. “Ou se enfrentar o problema fiscal ou o mercado fará o próprio ajuste, previsões.
Para o especialista, a combinação de desequilíbrio fiscal profundo, crédito caro e perda de confiança nos indicadores econômicos pode empurrar o país para um cenário “desesperador”. Nesse quadro, os investidores fugiriam do financiamento da dívida pública ou exigiriam juros ainda mais altos.












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