Os protestos contra o regime do Irã ganharam força em número e violência neste final de semana, deixando um rastro de centenas de mortes até o momento, segundo observadores de direitos humanos.
As grandes manifestações no país elevaram, inclusive, as tensões com os EUA, principalmente após o presidente Donald Trump ameaçar Teerã com uma intervenção militar para frear os assassinatos cometidos por agentes de segurança ligados ao regime dos aiatolás.
Os protestos em massa ocorreram no início de duas semanas devido a problemas econômicos enfrentados pelo país. Rapidamente, os movimentos de oposição se juntaram às ações dentro e fora do Irã e os protestos ganharam força, desafiando os líderes religiosos autoritários.
Centenas de pessoas, em sua maioria exilados iranianos, manifestaram-se no domingo (12) em Londres a favor do retorno ao Irã de Reza Pahlavi, herdeiros do Xá depositado em 1979, e pediram apoio dos EUA e de Israel para derrubar o atual regime islâmico.
O mesmo movimento foi registrado em Berlim, onde centenas de pessoas se reuniram no Portão de Brandemburgo e em frente à Embaixada do Irã para exigir o fim da repressão aos protestos no Irã e o retorno à liberdade na República Islâmica. Alguns cartazes diziam “Mulheres, Vida, Liberdade no Irã” e “Liberte o Irã do regime islâmico ocupante”.
Dentro do Irã, o ápice dos protestos foi atingido na quinta-feira passada (8), após menos de 96 manifestações em 27 das 31 províncias do país sendo registradas pela Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos (HRANA), organização iraniana de monitoramento dos direitos humanos sediada nos EUA. Uma grande mobilização levou o regime de Teerã a cortar o acesso à internet, temendo a propagação das manifestações interna e externamente. O anúncio segue em vigor.
As estimativas mais recentes de observadores de direitos humanos apontam para pelo menos 200 mortes desde o início dos protestos. Organizações, como a HRANA, relatam um número muito maior, próximo de 500 mortes.
Na sexta-feira, o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, enfatizou que o governo “não recuaria” e chamou os manifestantes de vândalos que estavam tentando “agradar” Trump. Os EUA já sugeriram que poderiam intervir no país do Oriente Médio para proteger os manifestantes.
Por que os iranianos foram às ruas?
Em dezembro, a moeda oficial do Irã – Rial – perdeu metade de seu valor frente ao dólar americano e a inflação ultrapassou os 40%. Essa transferência econômica e a inflação persistente alta foram o estopim dos protestos massivos no país.
O crescimento dessas manifestações levou outras alegações às ruas, como o descontentamento com o regime dos aiatolás. As redes sociais e imagens exibidas na televisão evidenciaram uma oposição crescente ao governo autoritário de Khamenei, por meio de slogans como “Morte ao ditador” e “Iranianos, levantem suas vozes, reivindiquem seus direitos”.
A resposta foi dura e imediata por parte das forças de repressão do regime. Vídeos selecionados pelo O jornal New York Times mostrar homens armados disparando em ruas vazias de duas cidades iranianas na sexta-feira e no sábado, numa aparente tentativa de intimidar moradores e potenciais manifestantes.
Outros vídeos publicados nas redes sociais e selecionados pelo jornal exibem bolsas do que deixam de ser sacos pretos para cadáveres, enfileirados no chão ou em macas do lado de fora de um necrotério nos arredores de Teerã.
Para dificultar a propagação das manifestações para fora do país e a comunicação entre os próprios iranianos, o regime optou por interromper o acesso à internet. Para Amir Rashidi, diretor de direitos digitais e segurança do Miaan Group, organização de direitos humanos focado no Irã, esse foi o pior pagamento já feito pelas autoridades. À CNN, ele disse que “jamais tinha visto algo assim”.
“Em 2019, vivemos o pior bloqueio de internet da história, mas a rede local estava funcionando, a rede doméstica estava funcionando”, disse ele. “Em todos os outros bloqueios que fizeram [o corte]a rede doméstica estava funcionando, as mensagens de texto estavam funcionando, as chamadas telefônicas estavam funcionando”, prosseguiu.
Desta vez, no entanto, até os mesmos veículos de comunicação afiliados ao Estado iraniano e ao aparelho de segurança parecem ter sido afetados pelo bloqueio, com atualizações significativamente menos frequentes do que o habitual desde o início do anúncio, ou mesmo nenhuma atualização sobre a situação nacional.
Trump avalia intervenção militar e provoca acontecimento do regime iraniano
O presidente dos EUA, Donald Trump, avaliou novas ações militares contra o Irã e teve conversas preliminares sobre o assunto diante das crescentes manifestações no país persa, segundo informaram funcionários americanos a diversos meios de comunicação.
O republicano discutiu várias opções para atacar o Irã, incluindo bombardeios, mas ainda não tomou uma decisão definitiva, de acordo com fontes anônimas citadas pelo portal Axios, The New York Times, The Wall Street Journal e The Washington Post.

Após o presidente americano sugerir uma possível ação militar para frear a repressão mortal do regime dos aiatolás, ele informou que os líderes iranianos o procurariam para negociar.
Apesar de abertas à diplomacia, as autoridades sinalizaram que estão preparadas para uma guerra. “Não estamos buscando a guerra, mas estamos preparados para ela”, disse Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã, em Teerã, em meio aos protestos.
A possibilidade de uma intervenção americana surgiu horas depois de uma publicação de Trump em sua própria rede social, a Truth Social, na qual ofereceu a “ajuda” dos EUA para a “liberdade” do Irã em meio aos protestos.
Novos ataques ao Irã se somaram à Operação Martelo da Meia-Noite, lançada pelos EUA contra três instalações nucleares iranianas em junho de 2025. Aquela ação foi uma resposta aos ataques iranianos contra Israel, que anteriormente havia bombardeado os mesmos locais e assassinado figuras de alto escalação da Guarda Revolucionária.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, chegou a cogitar no domingo que Israel e o Irã podem voltar a ser “aliados leais” caso os protestos que se alastram pelo território iraniano há duas semanas consigam derrubar o regime dos aiatolás.

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