
A Dinamarca autorizou suas forças armadas a abrir fogo contra qualquer tentativa de invasão da Groenlândia. A medida extraordinária reflete a escalada de uma crise geopolítica no Ártico, onde o presidente americano Donald Trump busca adquirir o território independente.
O presidente americano articula uma visão de domínio regional que denomina “Doutrina Donroe”, uma versão contemporânea da Doutrina Monroe do século XIX. Essa política busca excluir potências estrangeiras do hemisfério ocidental e consolidar o controle americano sobre recursos exclusivos.
A ofensiva dos EUA: Doutrina Donroe e minerais estratégicos
A Casa Branca justifica a medida como uma prioridade de segurança nacional. Trump afirma que a ilha está cercada por navios e submarinos da Rússia e da China. Para Washington, o controle direto é a única forma de garantir a proteção da fronteira norte contra mísseis balísticos intercontinentais. O vice-presidente americano JD Vance reforçou essa tese ao afirmar que o sistema de defesa contra mísseis depende criticamente da ilha.
Essa justificativa de segurança, porém, viola as normas diplomáticas e as tratadas internacionalmente. A administração considera abertamente o uso da força militar como uma opção viável para a anexação.
Stephen Miller, conselheiro de política da Casa Branca, questionou publicamente o direito da Dinamarca de controlar o território. Miller argumenta que o mundo é governado pela força e pelo poder, e não por normas jurídicas abstratas. Trump descreveu o movimento como “a maior transação imobiliária da história em termos de área”.
Nesse cenário, os Estados Unidos também operam na frente financeira para conquistar apoio local. Segundas informações do jornal americano Jornal de Wall Streetautoridades americanas discutem pagamentos anuais, estimados em cerca de 5 mil dólares por cidadão, para conquistar apoio popular.
Washington também cogita propor um acordo de associação livre, semelhante ao que mantém com as nações do Pacífico. Esse modelo permitiria operações militares americanas em troca de benefícios comerciais e assistência financeira.
O interesse americano é movido pela necessidade de controlar a produção de minerais estratégicos. A Groenlândia possui vastas reservas de lítio, cobalto, níquel e terras raras, como o neodímio. Atualmente, a China e a Rússia dominam a produção global desses insumos essenciais para tecnologias de defesa e smartphones. A posse da ilha daria aos Estados Unidos uma vantagem estratégica incalculável na corrida tecnológica do século 21.
A resposta da Dinamarca para a Groenlândia e o risco para a Otan
Essa lógica, porém, não leva em conta a vontade dos groenlandeses. Apesar das promessas financeiras, o povo groenlandês demonstra resistência clara à ideia. Embora a maioria dos 57 mil habitantes apoie a independência da Dinamarca, eles rejeitam a ideia de se tornarem americanos. O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, apresentou o fim das fantasias de anexação e das pressões externas.
Líderes dos partidos ocais reiteram que o futuro da Groenlândia pertence exclusivamente ao seu povo. Entre a população local, existe o temor de que a autonomia conquistada historicamente seja sufocada pelas necessidades militares de uma superpotência. Diante dessa resistência, a diplomacia europeia busca agora alternativas para evitar uma ruptura com Washington.
A ocorrência europeia oscila entre o choque e a preocupação institucional. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, alertou que qualquer tentativa de tomada forçada resultaria no fim imediato da aliança da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
O Ministério da Defesa da Dinamarca emitiu uma diretriz extraordinária: sua permissão para abrir fogo contra invasores sem aguardar ordens superiores. A Otan, pilar da segurança ocidental desde 1945, enfrentou uma situação inédita: a possibilidade de um aliado atacar outro.
Diplomatas em Bruxelas e discutem oferecem aos Estados Unidos acesso ampliado aos recursos minerais ou fortalecer a presença militar de Otan sob comando conjunto. A intenção é atender aos objetivos de Trump sem sacrificar a soberania dinamarquesa. O presidente americano, no entanto, insiste que uma “propriedade” territorial é necessária para o sucesso de sua estratégia. A comunidade financeira internacional já avalia as consequências dessa postura.
O que está em jogo na Groenlândia: geopolítica e mercados
Os mercados de apostas já refletem a gravidade da crise. Plataformas de apostas online como Polymarket e Kalshi registram milhões de dólares em apostas sobre a probabilidade dos Estados Unidos comprarem o território antes do fim do mandato de Trump. Analistas de risco apontam que 2026 será um ano decisivo para as instituições globais. A política isolacionista de Washington sinaliza que o país está agora empenhado em desmantelar a ordem internacional que ajudou a construir.
O teste real será se as instituições democráticas dos Estados Unidos e da Europa conseguirem conter essa escalada. A contrapartida americana, construída ao longo de gerações, está sendo testada por uma estratégia que prioriza o controle territorial sobre as alianças. Para Otan, o desafio não é mais um adversário externo, mas a possibilidade de autodestruição interna.











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