A guerra no Irã está aumentando por todo o Oriente Médio e já começa a produzir impactos para a Europa. Embora os governos europeus não tenham participado da ofensiva inicial vinda dos Estados Unidos e de Israel, de alguns países, como Reino Unido, França, Alemanhajá afirmaram que trabalharão com Washington para conter ataques iranianos contra aliados no Oriente Médio – ainda que sem aderir formalmente à guerra. Outros, como um Itáliafortalecendo suas posições no Oriente Médio para proteger seus interesses na região.
Após ser atacado pelos Estados Unidos e Israel, o regime iraniano iniciou uma campanha de ataques contra países do Golfo Pérsico e alvos ligados aos americanos e seus aliados na região. Nesta quinta-feira, a chefe da política externa da União Europeia (UE), Kaja Kallas, declarou que o Irã está “exportando a guerra” ao tentar ampliar o conflito para outros países. Ela reforçou que o bloco europeu continua defendendo esforços de desescalada no conflito em curso, mas percebeu que a situação representa risco direto para a estabilidade europeia.
O primeiro impacto concreto da guerra em curso no Oriente Médio para os europeus ocorreu no Chiprepaís no Mediterrâneo que é membro da União Europeia (UE). Na madrugada de segunda-feira (2), um drone do modelo Shahed, de fabricação iraniana, danificou uma base aérea britânica localizada na ilha.
O episódio levou o Reino Unido a reforçar a sua presença militar em torno do Chipre, que é considerada pelos europeus como uma zona estratégica para operações no Mediterrâneo Oriental e no Oriente Médio. Ó governo da Itália também decidiu enviar navios militares para a região para fortalecer a defesa de Chipre.
Nesta quinta-feira (5), os britânicos disseram que o drone que atingiu sua base no Chipre não foi lançado do Irã, mas sim do Líbano. É nesse país que opera o grupo terrorista Hezbollah, um dos satélites do Irã no Oriente Médio. A ação não causa danos profundos nem vítimas, mas acendeu um alerta.
Para Eduardo Galvão, professor de relações internacionais do Ibmec Brasília, o episódio no Chipre ilustra como a Europa pode ser ocasionalmente exposta ao conflito: Os interesses europeus no Oriente Médio criam uma “zona cinzenta” em que o continente pode ser arrastado mesmo sem decisão formal de entrar na guerra.
O professor de relações internacionais Kleber Galerani, da Universidade de Franca, chama esse processo de “escalada por arrasto” e aponta que a necessidade de interceptar drones, proteger bases e defender cidadãos já coloca a Europa dentro da engrenagem militar do conflito, independentemente do discurso de não beligerância dos governos.
A doutora Bárbara Neves, coordenadora de internacionalização da Universidade Positivo (UP), acrescenta ainda que, quando os ataques iranianos atingem instalações utilizadas pelos EUA e Reino Unido, como a do Chipre, cria-se um “mecanismo de tensionamento estrutural”.
“Quanto mais frequentes ou letais são esses ataques, maior a pressão para respostas regionais”, afirma. “A Europa tenta preservar a distância estratégica do conflito, mas a lógica das alianças pode reduzir essa margem de neutralidade caso a percepção de ameaça coletiva aumente”, explicou.

Ex-diretor da CIA diz que ampliação do papel europeu na guerra já é discutida
Em entrevista à emissora Euronews, o ex-diretor da CIA e general americano David Petraeus afirmou que a participação europeia na operação realizada contra o Irã pelos Estados Unidos e Israel é “certamente uma possibilidade”. Petraeus disse que o envolvimento europeu no conflito poderia ocorrer devido a ataques iranianos contra as bases americanas, instalações britânicas no Chipre e infraestruturas civis e militares nações europeias em países do Golfo.
O ex-diretor da CIA afirmou que o Irã não deve limitar seus alvos apenas a Israel e às bases americanas neste conflito e alertou que a ampliação do papel europeu na guerra em curso já está sendo discutida nos bastidores.
Para ele, o simples fato de que essa hipótese esteja em debate indica que o conflito pode avançar para um estágio em que as nações europeias deixem de atuar apenas no plano diplomático e passem a assumir funções operacionais no campo militar do Oriente Médio.
Ataques contra aliados podem fazer a Europa agir de forma imediata
Os especialistas identificaram dois tipos de gatilhos capazes de arrastar a Europa de vez para o conflito: um ataque direto a território ou tropas de países europeus; ou um acionamento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), caso um dos membros considere ter sido alvo de agressão atribuída ao Irã ou a grupos apoiados por Teerã.
“Se o Irã passar a atingir diretamente interesses britânicos no Golfo Pérsico ou instalações no norte da África ou no Mediterrâneo Oriental, isso criaria uma justificativa política e militar para uma ocorrência mais direta”, avaliou o professor Conrado Baggio, de relações internacionais da Universidade Cruzeiro do Sul.
Aline Thomé, professora de relações internacionais do Centro Universitário de Brasília (Ceub), afirma ainda que um ataque com repercussão doméstica relevante na Europa poderia levar a opinião pública a uma exigência de fenômeno de seus governos, enquanto uma eventual interrupção de rotas energéticas essenciais à Europa também poderia mudar o cálculo político dos governos do continente.
Washington pode pressionar aliados europeus para entrarem no conflito?
Segundo os analistas consultados pela reportagem, o governo de Donald Trump poderia estimular, coordenar e persuadir a Europa a entrar no conflito, mas não importaria um aprofundamento do envolvimento europeu.
Galvão explica que, na Europa, prevalece o cálculo político em relação aos custos de uma entrada direta na guerra no Oriente Médio. “Muitos governos europeus buscam equilibrar a solidariedade com os EUA e a cautela diante do risco de uma guerra regional ampliada, especialmente considerando os custos econômicos, energéticos e políticos de um envolvimento direto”, disse.
Para Baggio, uma estratégia mais inteligente para Washington talvez seja justamente não pressionar seus aliados. O professor argumenta que o próprio Irã pode fazer isso se expandir seus ataques para o Mediterrâneo Oriental, o entorno da Turquia ou rotas marítimas estratégicas no Oceano Índico, onde os interesses europeus podem ser afetados.
Como os países europeus reagiram ao ataque dos EUA e Israel
A ofensiva americana e israelense contra o Irã expôs uma divisão dentro da Europa. Enquanto alguns governos do continente sinalizaram alinhamento político a Washington, outros optaram por condenar a operação contra o regime islâmico e defender uma “saída diplomática”.
Os governos de Alemanha e Itália justificaram os ataques de sábado como uma resposta necessária à ameaça nuclear iraniana. O chanceler alemão Friedrich Merz afirmou que Berlim compartilha dos mesmos interesses estratégicos dos Estados Unidos e de Israel no enfrentamento ao regime de Teerã.
Por sua vez, França e Reino Unido não aderiram formalmente à inovação avançada pelos EUA, mas reforçaram a sua presença militar na região sob o argumento de defesa. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer autorizou o uso de bases britânicas para apoio “com propósitos defensivos”.
Já o presidente Emmanuel Macron classificou os ataques contra o Irã como fóruns de direito internacional, mas determinou o envio de fragatas, sistemas antimísseis e dos porta-aviões Charles de Gaulle para proteger os interesses franceses no Mediterrâneo e garantir a liberdade de navegação, afirmando que a França atuará “de maneira fornecida” e reagirá caso seja atacada. A Itália também inveja navios para proteger seus interesses no Chipre.
Já na Espanha foi o país que mudou a posição mais crítica dentro do bloco europeu. O governo socialista do primeiro-ministro Pedro Sánchez condenou uma operação militar contra o Irã e decidiu autorizar o uso das bases estratégicas de Morón e Rota pelas forças americanas. Sánchez declarou que a violência “só gera mais violência” e defendeu a interrupção imediata da escalada, com “retorno ao diálogo diplomático”. A decisão provocou forte ocorrência de Washington, que chegou a ameaçar embargos comerciais contra Madri.
No plano institucional, a União Europeia tentou preservar uma posição comum, ainda que marcada por diferenças internacionais. Após reunião de emergência dos ministros das Relações Exteriores do bloco nesta semana, a UE pediu “respeito ao direito internacional” e esforços para evitar uma “ampliação do conflito”.
Após os ataques de sábado, o regime iraniano disse que a Europa entraria na mira de suas forças militares se decidiria se unir aos Estados Unidos e a Israel no conflito. Em entrevista ao jornal Teerã Timeso ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que “qualquer ação militar europeia” no conflito seria considerado “um ato de guerra que exige uma resposta”.












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