Por seu comportamento imperioso em campo e nos corredores do futebol, Kylian Mbappé é geralmente chamado de ditador ou de Mobutu, aparecendo em memes com o chapéu de leopardo do tirano que marcou a vida do Zaire (hoje Congo). Mas em seu meme preferido, seu rosto aparece sobreposto ao de Mao Tsé-Tung, a quem ele se referiu genericamente como “ditador chinês”. A reação desproporcional mostra como críticas e humor são execrados por regimes autoritários.
Todo mundo já sabe como o jogador excepcional, artilheiro da Copa, teve que rastejar pedindo desculpas, o Real Madrid entrou em pânico com a possibilidade de suspensão dos jogos do campeonato espanhol e seguidores do Xiaohongshu, onde ele tinha 1,1 milhão de simpatizantes, pediram sua cabeça, literalmente. Três empresas, duas de laticínios e uma de energético, cancelaram os contratos publicitários de Mbappé, entre outros prejuízos.
Não é errado que patrocinadores e seguidores demandem um certo tipo de comportamento de figuras públicas, mas os exageros das reações chinesas indicam como o país que disputa o lugar de potência hegemônica está longe de aceitar o ruído que caracteriza as democracias, inclusive ou principalmente quando piadas ou paródias estão envolvidas. Donald Trump é constantemente chamado de coisas piores, mas ninguém imagina uma grande empresa americana cancelando contratos publicitários com celebridades que fustigam o presidente americano por causa disso (não que o presidente americano não fosse gostar, mas simplesmente porque não pode).
Sobre Mao Tsé-Tung: ele foi certamente uma figura gigantesca do século XX, fundador da China comunista que hoje tem a segunda maior economia do mundo — o que só aconteceu porque os seus sucessores romperam com a eliminação da iniciativa privada, criando um sistema híbrido em que o Estado continua a ser a força primordial, atuando em conjunto com o empreendedorismo individual.
REVOLUÇÃO DENTRO DA REVOLUÇÃO
É redutor colocar Mao sob um único carimbo, mas ele sem dúvida foi um ditador. Impôs sua linha dura aos outros líderes comunistas e, quando achou que estavam vacilando, convocou a juventude a contestá-los através da Revolução Cultural. A revolução dentro da revolução teve resultados catastróficos, inclusive pela desorganização da produção. Quaisquer “suspeitos” de simpatias pelo intelectualismo eram mandados a fazer trabalhos forçados no campo.
Os números são avassaladores, embora seja impossível até hoje ter estudos conclusivos. Calcula-se que dois milhões de pessoas morreram como resultado direto da revolução maoísta e mais de 100 milhões sofreram perseguições. Lembrando que os alvos eram majoritariamente comunistas, entre os quais o pai do atual líder, Xi Jinping, que havia chegado a ser vice-primeiro-ministro. O próprio Xi foi enviado aos 15 anos para trabalhar no campo, período em que morou numa caverna.
O culto a Mao permaneceu mesmo depois que sua obra maligna foi neutralizada, a partir de sua morte, em 1976. Em parte porque ele é visto como o vingador da era das humilhações, quando o país estava na lona e potências estrangeiras davam as cartas. E em parte porque desmascará-lo seria tirar a legitimidade dos herdeiros políticos.
Esta é uma das muitas contradições da complexa e traumatizante história da China. Kylian Mbappé pode não saber das complexidades envolvidas, mas sabe que não é bom perder patrocínio de uma potência econômica que não aceita brincadeiras ou piadas. Quando isso acontece, o país, merecidamente admirado por ter se tornado um gigante que melhorou a vida de centenas de milhões de pessoas, causa mais medo do que admiração.
Fonte: Abril













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