O mercado comemorou uma possibilidade antes da eleição e agora cobra outra depois dela.
Em relatório divulgado nesta segunda-feira (26), o UBS afirma que investidores devem continuar céticos com os ativos brasileiros até que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva apresente medidas concretas para conter o avanço das despesas e estabilizar a dívida.
A mudança de humor foi brusca. A valorização recente da Bolsa e do real havia sido impulsionada, segundo o banco, pela expectativa de uma vitória de Flávio Bolsonaro e de um governo mais disposto a fazer um ajuste fiscal rápido.
Com a reeleição de Lula, investidores passaram a rever essas posições. A B3 acionou o circuit breaker, que interrompe os negócios por 30 minutos quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior.
UBS aponta três condições
Para o banco, declarações de compromisso com o ajuste não bastam. A primeira condição para recuperar a confiança é apresentar um pacote com medidas quantificadas.
A segunda é explicar como as promessas de campanha, estimadas pelo UBS em R$ 300 bilhões, caberiam no esforço para equilibrar as contas. A terceira é demonstrar que o governo consegue aprovar as medidas no Congresso.
O teste fiscal ocorre em um cenário de dívida elevada. Em agosto, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB, ou R$ 11,1 trilhões, segundo o Banco Central.
O Fundo Monetário Internacional também aponta que o crescimento das despesas obrigatórias e as exceções às regras fiscais dificultam a consolidação das contas e pressionam a trajetória da dívida.
Promessas de campanha entram na conta
O valor de R$ 300 bilhões citado no relatório precisa ser lido com cautela: ele reúne compromissos de natureza diferente, e não equivale necessariamente a novas despesas diretas do Orçamento. A pressão sobre as contas depende de quanto cada medida custará, de como será financiada e de seus efeitos nos próximos anos.
O governo terá ainda de demonstrar que suas propostas podem avançar no Legislativo. O relatório do UBS considera que a composição do Congresso limita a chance de uma mudança fiscal mais profunda. Sem apoio para aprovar as medidas, um pacote anunciado pode não alterar as expectativas dos investidores.
Bolsa e real dependem da credibilidade fiscal
O UBS prevê que as ações brasileiras podem retornar aos níveis anteriores ao primeiro turno, antes da valorização associada às apostas eleitorais. O banco também vê espaço para uma desvalorização do real, embora o diferencial de juros do Brasil ainda dê sustentação à moeda.
A relação entre política fiscal e mercado passa pelos juros. Se os investidores não acreditarem que a dívida será estabilizada, o custo de financiamento pode permanecer alto, dificultando tanto a queda dos juros quanto a melhora das projeções de lucro das empresas.
Para o mercado, portanto, o próximo passo não é outra promessa: é uma conta que feche e consiga passar pelo Congresso.
Fonte: Abril













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