
A senadora Teresa Leitão (PT-PE) assumiu a liderança do governo no Senado com a missão de negociar a votação de metas prioritárias para a campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de gerenciar a crise aberta entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e o petista. A aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que determina o fim da escala 6×1 é o principal interesse do governo Lula. A campanha petista pretende explorar uma nova jornada de trabalho nas eleições, caso ela entre em vigor até a segunda quinzena de agosto.
As primeiras declarações públicas de Teresa Leitão procuram transmitir a normalidade institucional e a imagem de um governo que, apesar da crise, mantém canais abertos com o Senado. Em entrevista à CNN Brasilela afirmou que não houve ruptura de diálogo entre o Senado e a Presidência da República, atribuindo a percepção de crise a ruídos externos, não a um rompimento real.
A leitura de especialistas ouvidos pela Gazeta do Povoporém, é diferente. Para eles, Leitão não chegou para resolver a crise, mas para administrá-la publicamente enquanto o governo tenta reconstruir a relação com Alcolumbre. “Uma mudança de liderança pode melhorar o diálogo, mas ainda não há elementos que indiquem uma mudança efetiva na relação política entre Planalto e Senado”, avalia o professor e cientista político Elias Tavares.
O discurso do senador petista é calculista. Ao enquadrar o atraso na PEC do fim da escala 6×1 como parte do processo legislativo, o líder do governo tenta reduzir a pressão política sobre a aprovação da proposta e, segundo Elias Tavares, cegar o Planalto de uma cobrança futura, caso ela não avance. “A fala de Teresa Leitão parece uma tentativa de ganhar tempo político e reduzir a percepção de fracasso antecipado do governo”, comenta o cientista político.
Líder do governo minimiza adiamento de votação da PEC da escala 6×1
A votação da PEC do fim da jornada 6×1 no plenário do Senado dificilmente ocorrerá antes das eleições de outubro. Com o recesso parlamentar começando em 17 de julho e o segundo semestre dominado pela campanha eleitoral, uma janela para avaliação da proposta se fechará rapidamente.
“As pautas do governo ainda não avançaram. Por recurso de prazo, isso gera dificuldades para aprovação e, por consequência, o governo não vai ter esse trunfo nas eleições”, analisa o cientista político Eduardo Grin, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Leitão minimizou a resistência de Alcolumbre como algo dentro do rito habitual do Senado e chegou a afirmar que a PEC da escala 6×1 é, entre as prioridades do governo, a que tem a maior chance de avançar na Casa. Desde que foi aprovada na Câmara dos Deputados, em 27 de maio, a proposta está parada na Mesa Diretora do Senado, aguardando uma decisão de Alcolumbre sobre o início da análise. A aposta petista é que a votação ocorreu após o recesso parlamentar antes do início oficial das campanhas eleitorais, ou seja, entre os dias 1º e 15 de agosto.
A leitura predominante entre especialistas é que o discurso de normalidade de Leitão se trata de um “protocolo de crise”. Segundo Grin, quando um governo afirma que tudo segue o rito habitual dentro de um Senado comandado por um desafeto, é porque esse rito não está funcionando. “É um governo minoritário. A pauta depende do presidente da Casa, que não morre de amores pelo governo”, ressalta o cientista político, que ainda lembra que Lula não tem o apoio da maioria dos senadores.
Alcolumbre segue inflexível com as pautas do governo
Logo após a derrota do governo na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), atribuída à articulação de Alcolumbre, o presidente do Senado colocou na pauta do plenário três propostas definidas pelo Ministério da Fazenda como bombas fiscais: a renegociação das dívidas rurais, o chamado Refis do Agro (PL 5.122/2023); o reajuste do piso salarial de médicos e dentistas (PL 1.365/2022); e a aposentadoria especial para agentes de saúde (PEC 14/2021).
No mesmo dia em que Leitão se reuniu com Alcolumbre pela primeira vez, na semana passada, o presidente do Senado pautou a PEC dos agentes da saúde, proposta com impacto estimado de R$ 30 bilhões no orçamento federal.
Tavares explica que o governo mudou o interlocutor, mas não alterou o tabuleiro do jogo eleitoral. “A primeira rodada de conversas entre Teresa Leitão e Alcolumbre encerrou sem compromissos objetivos sobre o avanço das prioridades do governo”, ressalta.
A troca de interlocutor foi imposta pelo caso Master, não escolhida por estratégia. A escolha de Leitão é consequência direta das investigações policiais que assombraram a praça dos Três Poderes. Ela foi indicada pelo governo após a Polícia Federal revelar o envolvimento do senador Jaques Wagner (PT-BA) na nona fase da operação Compliance Zero.
O petista é investigado por supostas fraudes, lavagem de dinheiro e pela ligação com o Banco Master, incluindo a coleta de vantagens indevidas. Após os mandatos de busca e apreensão, o petista deixou a liderança do governo sob a justificativa de concentração dos esforços na defesa das acusações, alegando regularidade em suas relações empresariais.











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