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A Câmara dos Deputados aprovou na quarta-feira (27) o fim da escala 6×1 com votos de parlamentares que, até poucos dias antes, foram apresentados como adversários da redução da jornada. O motivo da adesão da oposição foi sobretudo eleitoreiro: reações nas redes sociais, pesquisas de opinião e a vitória da esquerda na batalha de narrativas deixaram os parlamentares acuados na pauta.
Nikolas Ferreira (PL-MG) e outras vozes ativas contra a forma como o tema do fim da escala 6×1 vinha sendo programado para votar junto com a base governamental. Apenas os deputados do Novo, uma minoria do PL e do Centrão e o deputado Kim Kataguiri (Missão-SP) foram contra.
Há alguns meses, a pauta já havia extrapolado a militância esquerdista e se tornou um tema de forte apelo popular. Pesquisa Datafolha divulgada em março revelou que 71% dos brasileiros apoiaram o fim da escala 6×1, contra 27% que se diziam contrários. Em ano eleitoral, esse dado passou a pesar sobre parlamentares que até então tratavam a redução da jornada como medida populista, arriscada para a economia.
A pressão sobre os deputados da direita aumentou depois da ocorrência de uma emenda apresentada por Sérgio Turra (PP-RS), com apoio de parlamentares ligados ao setor produtivo e à Frente Parlamentar da Agropecuária. O texto não dizia que a jornada passaria a 52 horas, como se chegou a propagar, mas abriu espaço para essa narrativa: embora fixasse 40 horas como regra geral, autorizou o acordo entre empregado e empregador para elevar a jornada em até 30% acima do limite, o que permitiria chegar a 12 horas semanais a mais além das 40 previsões. A emenda também prevê prazo de dez anos para a entrada em vigor da mudança.
Esses pontos do projeto, que visam explicar demais para a população, viraram munição para uma mobilização da esquerda nas redes sociais. A emenda passou a ser apresentada como uma tentativa de esvaziar o fim da escala 6×1 e empurrar a redução da carga horária para um futuro distante. Parlamentares da oposição e do Centrão sentiram a pressão tanto nas redes como em suas bases eleitorais, e se reuniram a recuar, numa tentativa de se descolar da ideia de que atuavam contra trabalhadores.
Foi nesse ambiente confuso e desfavorável que a oposição chegou à votação. Ser contra o texto que chegou ao plenário passou a significar assumir, diante do eleitor, o risco de ser identificado como defensor da escala 6×1. Para deputados que já enfrentavam pressão nas redes e nas bases, o custo político ficou alto demais, sobretudo porque o texto final não era a escala 4×3 proposta por Erika Hilton (PSOL-SP), mas uma versão mais moderada, negociada pelo Centrão, com jornada máxima de 40 horas semanais.
A maioria da oposição, no fim das contas, optou por não bancar o desgaste de rejeitar uma pauta que já havia sido vencida pela esquerda no enquadramento que chegou ao público. Com isso, desenvolvido para a vitória do governo Lula, que conseguiu manter domínio sobre a narrativa até o fim.
Oposição fez tentativa de última hora de pontaria contradição na esquerda
Vendo a derrota iminente, os deputados fizeram uma tentativa estabanada de, na última hora, propor a votação do projeto original de Erika Hilton, que propunha uma mudança mais radical, com escala 4×3 (proposta que prevê quatro dias de trabalho e três de folga) em vez de 5×2.
Deputados da direita como Nikolas e Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) passaram a acusar a esquerda de ter derrubado a escala 4×3. “A máscara caiu demais”, escreveu Nikolas no X.
Do outro lado, parlamentares de esquerda acusaram o PL de tentar confundir a população depois de ter resistido à pauta. “O PL tenta enganar o povo trabalhador”, escreveu o deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ). “Passaram meses combatendo o fim da escala 6×1, atrasando votação, defendendo ‘livre negociação’ entre patrão e gerente e atuando em favor dos super-ricos. Agora aparecendo falando em jornada 4×3? É luta. É cinismo.”
A estratégia, porém, não é colorida. O governo reagiu com uma emenda aglutinativa apresentada pelo líder do governo, Paulo Pimenta (PT-RS). A emenda reproduzida, com ajustes, o conteúdo do substitutivo de Leo Prates.
As tentativas de votar trechos alternativos ficaram prejudicadas com isso, porque o plenário passou a deliberar sobre um novo texto-base. Com sua aprovação, os destaques que poderiam alterar a proposta – entre eles o destaque do PL para tentar votar a escala 4×3 separadamente – nem sequer foram analisados.














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