
Cuba vive um dos momentos mais precários de sua história com uma crise generalizada que abrange setores essenciais da vida pública como alimentação, saúde, energia, educação e finanças. Desde a saída de um aliado crucial do jogo, a Venezuela, e o bloqueio americano à entrada de petróleo na ilha, a situação se deteriorou rapidamente e empurrou o regime para perto do colapso.
O agravamento da crise política e um eventual conflito direto com os EUA ficaram mais evidentes nesta semana após os rumores de que Havana teria adquirido mais de 300 drones militares da Rússia e do Irã para um eventual conflito com Washington. O ditador de Cuba, Miguel Díaz-Canel, chegou a afirmar que haveria um “banho de sangue” se Trump decidisse realizar uma operação militar na ilha.
Apesar da subida de tom, uma crise enfrentada pelos cubanos com a pressão americana enfraqueceu a capacidade de resposta da ditadura castrista. Eduardo Galvão, professor de Políticas Públicas do Ibmec e sócio da consultoria global Burson, explicou à Gazeta do Povo que essa perda de influência do regime atingiu profundamente os elementos que sustentam o funcionamento do Estado.
“O país enfrenta períodos de até 20 horas diárias, deficiências diversas de combustível, deficiências de infraestrutura e dificuldades crescentes de abastecimento. Isso compromete a logística, a mobilidade, a produção e até serviços essenciais, prejudicando a capacidade operacional do governo em um cenário de crise prolongada”, destacou.
Em novas declarações sobre a ilha, nesta terça-feira, o presidente Donald Trump afirmou que não seria difícil para seu governo resolver a situação de Cuba, referindo-se à crise atual.
“Cuba está nos chamando. Eles precisam de ajuda. Cuba é uma nação falida. Cuba precisa de ajuda, e nós a daremos”, declarou, sem dar detalhes de como os EUA poderiam agir nesse sentido.
Além da questão social e da pressão externa, a crise energética tem despertado a população para uma nova onda de mobilização. “Os protestos cresceram, se espalharam e passaram a incluir enfrentamentos mais diretos contra forças do regime. Isso obriga o governo a deslocar parte relevante de sua capacidade de controle para administrar estresse interno, margem de manobra para eventos externos mais robustos”, avaliou Galvão.
Discurso agressivo do regime é estratégia falida para esconder falta de capacidade militar, diz analista
Para a professora de Relações Internacionais da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Ludmila Culpi, o regime de Miguel Díaz-Canel adota um ato de comunicação estratégica com seu discurso agressivoque os teóricos das Relações Internacionais chamam de sinalizaçãonuma tentativa de dissuasão que substitui o poder material que Cuba simplesmente não tem, devido ao isolamento comercial e consequente recessão prolongada.
Um dos últimos recursos que o regime cubano espera obter em caso de um conflito é ajuda de aliados externos, como Rússia, China e Irã, que tentam manter alguma influência na América Latina.
“Desde janeiro, quando a intervenção norte-americana na Venezuela derrubou Maduro e bloqueou o fornecimento de petróleo venezuelano a Cuba, o regime viu evaporar seu principal aliado estratégico na região. O que sobra é um mosaico de solidariedade retórica e apoio humanitário limitado, longe do que seria necessário para sustentar um conflito”, mencionou o analista.
A China é um dos principais aliados de Cuba em meio à crise, fornecendo ajuda financeira, alimentar e tecnológica. Apesar desse posicionamento, as declarações de Pequim foram explicitamente de caráter humanitário, mudando qualquer dimensão militar.
“A China não arriscará um confronto direto com os EUA por Cuba, pois há mais a perder na disputa hegemônica. A lógica do balanço de poder pede cautela quando os custos são assimétricos. Pequim se posiciona com foco no longo prazo em sua política externa e não transformará a ilha num ponto de inflexão que compromete sua relação com Washington”, explicou a professora.
Em relação à Rússia, outro aliado de longa data do regime castrista, o ditador Vladimir Putin condenou explicitamente as ações americanas e sinalizou que continuará enviando petróleo a Cuba apesar das ameaças de bloqueio. No entanto, a guerra na Ucrânia não permite que Moscou assuma compromissos militares isolados, além de seu alcance naval no Atlântico ser extremamente restrito.
Outro ponto mencionado por Culpi é a memória da Crise dos Mísseis de 1962, quando a então União Soviética se recuperou diante do poder americano no Caribe. “Isso permanece como referência histórica de que, nesse teatro específico, os EUA possuem supremacia incontestável”.












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