Vinte anos depois do ataque de uma facção criminosa paralisar as atividades da maior cidade do país, uma pesquisa do Datafolha trouxe um número perturbador: de cada dez brasileiros, quatro relatam não a presença de criminosos organizados no bairro em que vivem. Destes, mais de um terço (35%) afirmaram que os grupos criminosos têm “muita” influência nas regras de convivência do bairro.
O medo da violência é praticamente universal. Um total de 96,2% dos entrevistados declararam ter medo de, pelo menos, uma situação de violência. No topo das preocupações dos brasileiros estão os crimes patrimoniais e de estelionato digital: o maior temor da população é ser vítima de um golpe e perder dinheiro pela internet ou pelo celular, realidade que assombra 83,2% dos entrevistados.
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Na sequência, destacaram-se o medo de ser assaltado à mão armada (82,3%), de morrer durante um assalto (80,7%), de ter o celular roubado ou furtado (78,8%) e de ser assaltado na rua (78,6%). Além disso, a violência extrema também gera forte pânico coletivo, visto que 77,5% das pessoas têm sido atingidas por “bala perdida” e 75,1% têm medo de serem assassinadas.
Metodologia da pesquisa
Encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a pesquisa “Os Gatilhos da Insegurança” reuniu mais de duas mil pessoas (2.004) com 16 anos ou mais em 137 municípios do país nos dias 9 e 10 de março de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.
Os coordenadores da pesquisa e responsáveis pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o diretor-presidente da organização, Renato Sérgio de Lima, e a diretora-executiva, Samira Bueno, destacaram o papel do sentimento de insegurança no país e como ele pode influenciar nas eleições de outubro.
“Acreditamos que tais gatilhos de insegurança são disparados não só pela dimensão da vitimização criminal, mas, sobretudo, pelo sentimento de medo e insegurança que eles provocam. (…) É ele (o medo) — e não dados ou argumentos racionais — que determinará as escolhas eleitorais em outubro de 2026”, declararam os responsáveis pela pesquisa.
Ataques do PCC
A pesquisa foi divulgada no domingo (10), marco que fica às vésperas de um dos acontecimentos mais assustadores relacionados ao crime organizado na história do país. No dia 12 de maio de 2006, uma sexta-feira, detentos das casas de custódia de Avaré e Iaras, no interior de São Paulo, rebelaram-se.
Logo em seguida, bolsas de penitenciárias se amotinaram, num total de 74 presídios em que os internos tomaram o controle das casas de detenção — algumas unidades da antiga Febem também integraram o movimento. O motivo foi uma transferência de presos, que passariam ao regime disciplinar diferenciado (RDD).
A Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) do Estado decidiu transferir 765 presos para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, na zona oeste do Estado, uma unidade de segurança máxima isolada no interior paulista, a mais de 600 km da capital. Entre os presos estava Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, considerado o líder do chamado Primeiro Comando da Capital (PCC), que por muito tempo foi tratado pelo poder público apenas como um barco.
Foi a segunda vez que a organização promoveu um amortecimento em massa com “SALVES” (comunicado por rádio ou telefone direto da cúpula do crime). Cinco anos antes, em fevereiro de 2001, mais de 20 casas se rebelaram, tornando o grupo mundialmente conhecido e desmoralizando o governo de São Paulo.
Nos anos 2000, a resposta oficial a perguntas sobre o PCC era dizer que o governo não reconhecia a existência de “supostas organizações”. Havia o entendimento de que, ao considerar o PCC e outras facções, acabaria se fortalecendo sua atuação e dando mais poderes a elas.
As rebeliões nas penitenciárias acompanharam uma onda de ataques que mataram mais de 560 pessoas, destes ao menos 60 policiais — números que, 20 anos depois, seguem aproximados e sem confirmação oficial — e que levaram terror às ruas, paralisando o transporte público e mandando mais cedo para casas milhões de pessoas na capital paulista.
Depois da violência nos presídios, os barcos sobre toques de coleta se espalharam entre a população e, rapidamente, supermercados foram fechados, universidades suspenderam as aulas, bases da Polícia Militar foram atacadas e até a sede do Ministério Público foi alvejada a tiros. Ônibus deixados de circular e era praticamente impossível encontrar táxis disponíveis.
“Foi algo inédito, que nunca tinha acontecido antes. Ninguém imaginava que aquilo tivesse acontecido. Não havia nenhum tipo de expectativa de que houvesse uma tensão [anterior] no sistema penitenciário. Muita gente fala que isso foi nosso 11 de setembro aqui em São Paulo”, declarou o jornalista e pesquisador de segurança pública Bruno Paes Manso, em entrevista à Agência Brasil.
O ataque acabou controlado após um encontro entre o líder do crime, Marcola, e uma defensora do então governador Claudio Lembo (na época, político do incêndio PFL). Lembo morreu em 2025, mas, dez anos antes, foi admitido em entrevista ao Estado de S. Paulo que o encontro de sua advogada com Marcola pode ter contribuído para o fim dos ataques.
Em resposta ao ataque dos grupos criminosos, a administração estadual promoveu uma série de medidas que incluíram a criação de uma polícia penal e a ampliação de vagas no sistema prisional. Oficialmente, atribuem-se a esses fatores a aparente tranquilidade que passou a vigorar no sistema prisional. Apesar da alta percepção de insegurança em relação aos crimes patrimoniais, os índices de crimes contra a pessoa estão em baixa em São Paulo.
Apesar disso, um crime mostrou todo o poder e audácia da facção em 2024. O empresário Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, ligado ao PCC e delator de um esquema de corrupção policial, foi morto em uma execução pública no Terminal 2 do aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos. A morte foi vista como um relato de que uma facção poderia matar quem quisesse, onde quisesse e no momento que quisesse.
A reportagem da Gazeta do Povo distante tanto a SEIVA quanto a PES para que comentem as repercussões dos ataques, nas últimas duas décadas do acontecimento. Até o fechamento desta edição, seus posicionamentos ainda não tinham chegado. Caso os órgãos respondam, seus posicionamentos serão acrescentados.











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