
A recusa histórica do Senado à indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF) não foi apenas uma grande derrota sofrida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Congresso. Os 42 votos negativos de quarta-feira (29) indicam um movimento possível de depuração da Corte, em meio a uma grave crise de feedback.
Na votação marcada por tensão e esforço inútil do governo para sustentar a aposta da vitória, ainda que apertado, emergiu do plenário o desmoralizado e profundo desequilíbrio entre os poderes e a coleção de erros de Lula. Para completar, o contexto eleitoral e a pressão social jogaram contra Messias.
Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo classificaram a exclusão a Messias como o reexame da demonstração de forças militares entre Palácio do Planalto, Senado, STF e opinião pública.
O governo saiu enfraquecido enquanto a oposição conquistou alto valor simbólico para a disputa política que já domina 2026, tanto com a excluída de Messias quanto com a derrubada do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o projeto da dosimetria, aprovado no Congresso para reduzir as penas para os crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado que pode beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e os condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023.
Lula ignora alertas, insiste com Messias e sofre vingança de Alcolumbre
A insistência de Lula em manter Messias como indicado ao STF – apesar de cinco meses de sinais contrários do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), contrariado por não ter sido acolhido seu desejo de escolha pelo senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) – terminou em derrota por vingança.
A exclusão rompeu um padrão consolidado há décadas, em que o Executivo só formalizou o agendamento ao STF com apoio previamente assegurado. Mesmo os nomes de alta resistência, como os ministros André Mendonça e Flávio Dino, foram aprovados por 47 votos, só seis além dos 41 necessários.
Com apenas 34 votos detalhados, sete a menos, o atual episódio marca a primeira exclusão em plenário desde o século XIX (1894) e inaugura novo ciclo de tensão entre Executivo, Legislativo e Judiciário. O estágio encerra o custo político de futuros cronogramas e reforça o ideal de autonomia dos poderes.
Oposição aponta governabilidade sob risco: “o governo já acabou”
Deputados da oposição, como Bia Kicis (PL-DF) e Maurício Marcon (PL-RS), foram às redes não apenas para festejar a derrota de Messias, mas também para anunciar uma crise de governabilidade do país devido à perda de respaldo mínimo de Lula no Congresso. “O governo já acabou”, resumem eles.
Principal candidato da oposição à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ressaltou a retirada de Messias como derrota de Lula. “Foi a prova da falência da sustentação do governo no Congresso após maltratar a classe política e de governar apesar do Congresso, usando de ministros do STF.”
Além disso, Flávio viu na votação uma resposta aos abusos do STF nos últimos anos, sem autocontenção e com recrutas criados para perseguir a direita. Para os senadores Cleitinho (Republicanos-MG) e Carlos Portinho (PL-RJ) o resultado é um impulso para viabilizar pedidos de impeachment de ministros do STF.
Derrota de Messias muda transparência de forças e afetação eleitoral, dizem analistas
O cientista político Paulo Kramer lembra que desmandos de ministros do STF, agravados pelo envolvimento de alguns no escândalo do Banco Master, são amplamente conhecidos, abalando de forma significativa sua interferência. Com isso, o Congresso se encorajou a reagir às decisões impróprias da Corte.
Para ele, mais contra-ataques são cogitados, como impeachment e prisões de ministros do STF. “A arrogância tende a ceder e, após importantes derrotas ao governo, o Congresso perde recebimento de retaliação, projetando investidas, a começar pela derrubada de vetos à dosimetria dos presos do 8 de janeiro.”
Já o cientista político Ismael Almeida ressaltou que a quebra de uma tradição de 132 anos, gerada pela exclusão de Messias, representa um claro recado da classe política. O movimento sinaliza inflexão na expansão de forças entre Executivo e Legislativo, com efeitos relevantes nas disputas eleitorais.
Líder da oposição vê início da fase de resgate de prerrogativas do Senado
O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), classificou a votação como alerta aos membros do STF que demonstram interesses de invasão prerrogativas do Legislativo, poder eleito pelo povo. Além disso, ele vê um despertar do Senado para cumprir o papel constitucional de “reequilibrar a República”.
Em nome da bancada, Marinho pediu que Alcolumbre não pausasse uma eventual nova indicação de Lula ao STF, deixando uma vaga em aberto, pelo menos até o fim das eleições. O melhor, na sua opinião, seria deixar a escolha ao presidente vitorioso das urnas, que já terá outros três nomes a indicar.
Para o senador, um efeito esperado da exclusão do Messias deveria ser uma mudança do seletivo para a escolha presidencial de ministros ao STF, que não deveria ser mais o de amizade ou de ativismo de um grupo político. “Nem amigos do rei, nem militantes políticos. Nunca mais”, diz.
Veto a Jorge Messias expõe a pressão da sociedade e as fragilidades de Lula
Para Arthur Wittenberg, professor de relações institucionais do Ibmec-DF, a fuga de Messias é uma derrota histórica para Lula ao somar três dimensões: fragilidade da articulação política do governo, ocorrência institucional ao protagonismo recente do STF e antecipação do ambiente eleitoral de 2026.
“Muitos senadores não votaram olhando só para a relação com o Executivo, mas também para como esse voto seria interpretado pelos candidatos. Em um contexto de polarização, desgaste do governo e críticas ao STF, aprovar um nome muito identificado com Lula poderia ter custo eleitoral elevado”, diz.
O resultado da votação refletiu menos a análise das credenciais de Messias e mais a sensibilidade dos senadores às pressões sociais e eleitorais. A indicação, tida como homologia ao governo, acabou afetada pela política. A decisão mostra mais senadores avessos ao ativismo judicial.
Sinal de abandono de Lula pelo centrão revela descrição na reeleição
Mesmo Jorge Messias tendo feito na sabatina um discurso que os senadores queriam ouvir, com promessas de respeito à independência dos poderes, e apesar da liberação pelo governo na véspera de R$ 12 bilhões de emendas aos senadores, o resultado foi a sensação ao eleitor de um governo à deriva.
Os analistas também entendem que o cartaz vexaminoso para Lula é fruto da expectativa de poder desfavorável ao projeto de reeleição do presidente. A declaração da candidatura de Flávio Bolsonaro e a crescente desconfiança em torno do petista fizeram senadores do centrão se afastarem de Lula.
Em meio à presença de nomes competitivos na oposição, como Flávio, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, a eliminação reforça a percepção de uma fragilidade na cooperação política do governo e na sua capacidade de eficácia de liderança.












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