
Em uma madrugada tensa, a base do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Congresso conseguiu, nas primeiras horas deste sábado (28), o relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. Apresentado pelo deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) e com 4.340 páginas, o documento pedia o indiciamento e a prisão preventiva de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
A comissão investigou um esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias, e o olhar detalhava a anatomia de uma organização criminosa infiltrada na estrutura previdenciária. Com a exclusão, selada com um cartaz de 19 a 12, sete meses de trabalhos do colegiado foram encerrados sem um relatório conclusivo.
Diante da inviabilidade de se votar um parecer alternativo, o presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), declarou o encerramento das atividades, deixando o caso sob responsabilidade exclusiva da Justiça e da Polícia Federal (PF), que já conduz investigações no mesmo sentido nas operações Sem Desconto e Compliance Zero.
O cartaz final foi resultado de uma ofensiva montada pela Secretaria de Comunicação da Presidência e pela liderança do governo no Congresso.
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Horas antes da votação, o presidente Lula exonerou temporariamente o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, para que ele reassume seu mandato no Senado exclusivamente para participar da sessão da CPMI.
A manobra retirou do colegiado a senadora suplente Margareth Buzetti (PP-MT), que havia sinalizado voto favorável ao texto de Gaspar e ao indiciamento de Lulinha.
Além da volta de Fávaro, o governo mobilizou o senador Jaques Wagner (PT-BA), que passou de Salvador a Brasília com caráter de urgência para garantir o quórum governista.
A recomposição das cadeiras foi fundamental para ampliar o brilho das forças no colegiado que era presidido e relatado por nomes de oposição.
Relatório vazado detalhava desvio de R$ 6,3 bilhões de juros do INSS
O relatório rejeitado pela maioria governamental trazia um inventário do esquema que teria drenado aproximadamente R$ 6,3 bilhões de beneficiários do INSS entre 2019 e 2024. O texto dividia a organização criminosa em cinco núcleos coordenados: o técnico, o administrativo, o financeiro, o empresarial e o político.
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No centro dessa engrenagem estava Antônio Carlos Camilo Antunes, o chamado Careca do INSS, apontado como o principal operador e facilitador das fraudes.
Atualmente preso na Papuda, Antunes é acusado de gerenciar empresas de fachada e associações que utilizavam Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com a Previdência para aplicar descontos indevidos em folha.
Segundo as investigações, o grupo utilizou softwares sofisticados para falsificar assinaturas de aposentadorias e inseriu-os em listas de filiação de entidades como a Conafer e o Sindnapi, que arrecadaram centenas de milhões de reais sem a anuência real dos segurados. Somente em 2024, esses descontos sob suspeita saltaram de milhões para bilhões, atingindo a marca de R$ 3,5 bilhões em um único ano.
Lulinha foi citado como facilitador de acesso do Careca do INSS no governo
A parte mais sensível do relatório de Gaspar reside nas 216 recomendações de indiciamento, com foco especial em Fábio Luís Lula da Silva. O relator sustentou que Lulinha não era mero espectador, mas um “facilitador de acesso” para os interesses de Antunes no governo federal.
A principal prova citada no documento foi o depoimento de Edson Claro, ex-funcionário do Careca do INSS, que narrou à PF o pagamento de uma suposta mesada de R$ 300 mil ao filho do presidente, além de um repasse único de R$ 25 milhões.
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Os valores tinham como objetivo financiar a influência de Lulinha na articulação do Projeto Amazônia, o, que pretendia vender medicamentos à base de cannabis ao Sistema Único de Saúde (SUS).
O relatório detalhou a existência de empresas no exterior, como a Candango Consulting em Portugal, onde Lulinha seria sócio oculto do Antunes. Outro ponto relevante foi a revelação de que o dinheiro oriundo das fraudes previdenciárias teria custeado passagens em primeira classe e hospedagens de luxo para o filho do presidente em viagens internacionais.
A defesa de Lulinha, no entanto, nega qualquer irregularidade, afirmando que o cliente não é alvo de investigação formal pela PF e que as aplicações têm aplicação seletiva.
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Documento também pedia indiciamento de Daniel Vorcaro
A investigação da CPMI também se debruçou sobre a atuação do Banco Master no mercado de crédito consignado para investidores. O relator pediu o indiciamento de Daniel Vorcaro, ex-dono da instituição, alegando que o banco se beneficiava de um esquema de fraudes que envolvia o uso de dados de seguros sem autorização.
Segundo o presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, o órgão optou por não renovar o contrato com o Master após descobrir que mais de 250 mil contratos de empréstimo não contavam com documentos que comprovassem a anuência dos beneficiários.
As mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela PF revelaram uma rede de influência que citava autoridades de alto escalonamento, incluindo o próprio presidente Lula e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Embora a defesa de Vorcaro negue qualquer crime e crítica ao vazamento de informações confidenciais, o relatório de Gaspar apontou que o banco herdou carteiras de empréstimos irregulares e as utilizou para inflar seus resultados financeiros, prejudicando milhões de pensionistas.
Relatório rejeitado criticava atuação do STF
Ao longo dos sete meses de investigação, o clima entre a CPMI e o STF foi de tensão constante. O relator dedicou uma seção inteira do seu parecer para denunciar o que foi classificado como o “esvaziamento dos poderes investigatórios do Parlamento” pelo Supremo.
O deputado criticou a concessão sistemática de habeas corpus que impediu o depoimento de testemunhas-chave e a suspensão de quebras de sigilo, como a de Lulinha, determinada pelo ministro Flávio Dino.
O episódio mais recente da crise ocorreu na quinta-feira (26) com a decisão do Plenário do STF que derrubou a liminar do ministro André Mendonça para prorrogar os trabalhos da CPMI. Por 8 votos a 2, a Corte entendeu que a prorrogação era uma questão interna do Congresso, negando o pleito da oposição de ter mais 60 dias para aprofundar as investigações sobre o Mestre e as conexões internacionais de Lulinha.
Para o senador Carlos Viana, essa intervenção judicial foi o que impediu que uma comissão avançasse sobre as verdadeiras cabeças do esquema.
Aliados de Lula fizeram relatório alternativo que pede indiciamento de Bolsonaro
Em resposta ao texto de Gaspar, a base do governo elaborou um “Relatório da Maioria”, apresentado pelo deputado Paulo Pimenta (PT-RS). O documento paralelo tentou mudar o foco das investigações, descobrindo o indiciamento de 131 pessoas, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a quem se classificou como o líder de uma organização chamada “Bolsomaster”.
O texto governista argumentou que as fraudes no INSS foram resultado de falhas institucionais herdadas do governo anterior e que o presidente Lula teve a coragem de abrir as investigações. Esse documento, no entanto, não chegou sequer a ser considerado.
Com a denúncia do relatório principal de Gaspar na madrugada, o presidente da CPMI, Carlos Viana, encerrou a sessão sem designar um novo relator para ler o parecer do governo, enterrando de vez as duas narrativas no âmbito da comissão.
Apesar disso, o senador afirmou que enviará mais de 4 mil páginas do relatório de Alfredo Gaspar para a PF e para o Ministério Público Federal (MPF).











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