
Enquanto os EUA posicionaram o maior destaque militar em mais de duas décadas no Oriente Médio, o Irã se dividiu entre a busca de resolução dos atributos por via diplomática e uma preparação apressada de suas bases e instalações nucleares para um eventual conflito.
Nesta terça-feira (24), a Guarda Revolucionária iraniana realizou exercícios militares no sul do país e nas ilhas do Golfo Pérsico. Foram mobilizados mísseis, artilharia, drones, forças especiais e veículos blindados, segundo a TV estatal iraniana. Mas essa é apenas uma das ações tomadas nos últimos dias, desde que a pressão cresceu na região: na semana passada, Teerã fez exercícios militares no Golfo de Omã com a Rússiaum de seus principais aliados.
Nesse contexto de intensificação militar, o regime iraniano tem buscado se aproximar da Rússia e da China, o que evita se envolver diretamente na situação. Após o anúncio de um acordo secreto com Moscou para fornecimento de milhares de equipamentos militares perto de fechar um pacto com Pequim para a compra de mísseis de cruzeiro antinavio que poderia abrir um novo cenário na região.
A preparação militar ocorre em meio à falta de resultados significativos entre negociadores iranianos e americanos. De acordo com o principal diplomata do Irão, Abbas Araghchi, os dois lados concordaram com um conjunto de “princípios orientadores”, no entanto, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, disse que o Irão não conheceu os pontos inegociáveis estabelecidos pelo presidente americano, Donald Trump: que o Irã reveja seu programa nuclear, interrompa a produção de mísseis balísticos e cesse o apoio a grupos terroristas na região.
Teerã tem afirmado que, no caso de um ataque dos EUA, as consequências não se limitariam a um único país e a responsabilidade recairia sobre aqueles que iniciaram ou apoiaram tal ataque, incluindo aliados regionais dos americanos, como Israel.
Como o Irã está se mobilizando para um eventual conflito
A ameaça de conflito gerou mudanças na estrutura de poder interna do regime.
Enquanto o líder supremo, Ali Khamenei, mantém certo distanciamento da vida pública, o Conselho Supremo de Segurança Nacional, chefiado por Ali Larijanipassou a tomar a frente no atual momento de crise. Segundo o jornal O jornal New York Times, Khamenei incumbiu Larijani de “conduzir o país” durante os protestos iniciados em dezembro e ele teria sucesso governando o país.
Em entrevista à emissora catari Al Jazeeraneste mês, o poderoso aliado de Khamenei disse que o país estaria preparado para a guerra.
“Definitivamente, somos mais fortes do que antes. Nos preparamos nos últimos sete, oito meses. Identificamos nossas fraquezas e as corrigimos. Não buscamos a guerra e não a iniciaremos. Mas, se nos forçarem a isso, responderemos”, declarou na ocasião.
Além dessa movimentação no alto escalonamento, o regime criou uma nova massa para lidar com o atual cenário de instabilidade: o Conselho de Defesa, focado em tempos de guerra. O veterano militar e ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC)
Segundo um relatório do grupo de reflexão americano Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês), desde aquela troca de agressões, As próximas lideranças de Khamenei buscam uma reestruturação no regime entre figuras linhas-duras, moderadas e pragmáticas, o que inclui Larijani.
Vali Nasr, especialista em Irã na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, explicou ao Tempos que essa redistribuição do poder sinaliza que o líder supremo iraniano espera ser um “mártir”.
“Ele está distribuindo o poder e preparando o Estado para o próximo grande evento, tanto a secessão quanto a guerra, sabendo que a secessão pode ser uma consequência da guerra”, avaliou o especialista.
Em relação à preparação operacional, as autoridades iranianas passaram os meses seguintes ao conflito com Israel reformas nas instalações de mísseis e bases aéreas que foram gravemente danificadas pelos ataques.
Tempos que o país já posicionou lançadores de mísseis balísticos ao longo de sua fronteira oeste com o Iraque – perto o suficiente para atingir Israel –
Ainda na tarefa de instrução de suas capacidades de defesa, uma investigação do Tempos Financeiros mostrou que o Irã procurou a Rússia para firmar um acordo para comprar milhares de sistemas portáteis de defesa aérea, num pacto avaliado em cerca de 500 milhões de euros. Segundo o jornal britânico, Moscou teria se comprometido a enviar, ao longo de três anos, pelo menos 500 sistemas de defesa aérea portátil “Verba” e 2.500 mísseis compatíveis com esse sistema.
Na mesma linha, a Reuters informou que o O Irã estaria próximo de fechar um acordo com a China para comprar mísseis de cruzeiro antinavio supersônicos CM-302. A reportagem citou seis pessoas com conhecimento sobre o acordo, que já estaria em fase final, após o ataque dos EUA ao Irã no ano passado ter acelerado as tratativas. Os mísseis negociados, segundo a Reuters, Poderiam aumentar a capacidade de ataque iraniana e representar ameaças às forças navais dos EUA que está na região. Ainda não há, porém, uma data de entrega acordada e o Ministério das Relações Exteriores da China declarou não ter conhecimento dessas negociações.
As negociações podem ser “tábua de salvação” para o regime iraniano
As negociações em curso entre autoridades iranianas e americanas são vistas como a melhor opção para o regime dos aiatolás.
O presidente americano, Donald Trump, deu um prazo de duas semanas – que deve expirar na próxima semana – para o regime decidir o seu futuro. Uma oportunidade, se aproveitada integralmente por Teerã, pode livrar o país de um ataque militar e aliviar as diversas sanções que prejudicam a economia iraniana.
No entanto, ao mesmo tempo em que surge como uma “tábua de salvação”, um eventual acordo com os EUA envolve concessões fundamentais para o poder de dissuasão do regime, em especial o seu programa nuclear que é visto como uma ameaça para os seus inimigos.
Uma análise do think tank americano Conselho Atlântico pondera que, considerando que Khamenei passou mais de 36 anos cultivando um legado de desafio às potências ocidentais, uma mudança de postura nesse nível seria considerada um sacrifício que o regime não estaria disposto a aceitar.
Na hipótese de conseguir infligir danos significativos às forças americanas, o Irã manterá sua mensagem de resistência, sem entrar em colapso, consolidando assim sua posição tanto interna quanto internacionalmente.
O analista militar da reserva Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, colunista da Gazeta do Povoavaliando que, no caso de uma resposta contundente de Teerã – por meio de baixas não previstas pelos militares americanos – a situação pode se agravar no Oriente Médio e gerar um conflito mais amplo.












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