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‘Arquipélago de calor’: observatório aponta que Alemão registrou 42,2°C, acima do recorde de calor do verão do Rio; entenda

Redação Por Redação
17 de janeiro de 2026
Em Notícias
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‘Arquipélago de calor’: observatório aponta que Alemão registrou 42,2°C, acima do recorde de calor do verão do Rio; entenda
Twitter1128254686redacaobcn@gmail.com



‘Arquipélago de calor’: observatório aponta que Alemão registrou 42,2°C, acima do recorde de calor do verão do Rio; entenda
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Pesquisa indica que moradores de comunidades do Rio podem sentir o calor extremo de forma ainda mais agudo No dia mais quente do verão no Rio de Janeiro até agora, segunda-feira (12), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou 40,8°C na Vila Militar. A medição do Alerta Rio, órgão da prefeitura, foi além de: 41,4°C, em Santa Cruz. Enquanto isso, o Complexo do Alemão enfrentou um calor de 42,2°C, de acordo com outro sistema de medição, o Observatório do Calor. O projeto, parceria entre a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima e a ONG Voz das Comunidades, existe desde 2023 e nunca teve temperatura registrada tão alta. O observatório foi criado com o objetivo de produzir dados e evidências sobre os impactos das mudanças climáticas em territórios de favela. No Inmet e no Alerta Rio, as estações de medição não ficam dentro de comunidades, onde há as chamadas “ilhas de calor” – no caso do Alemão, um “arquipélago de calor” (entenda abaixo). Uma pesquisa indicou falta de árvores intensas ou calor extremo nas comunidades. “Medimos principalmente a temperatura do ar, porque é ela que impacta diretamente a saúde, o bem-estar e a forma como o calor é sentido no dia a dia pelas pessoas no território”, explica Gabriela Conc, diretora executiva do Voz das Comunidades e idealizadora do Observatório do Calor do Complexo. “Não é só a temperatura do solo que define a experiência cotidiana, mas o ar que circula nas casas, nas ruas e nos espaços de convivência”, completa. Ilhas de calor Mulher bebe água no calor do Rio Reprodução/TV Globo Para a especialista em climatologia Núbia Armond, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora da Universidade de Indiana (EUA), as ilhas de calor são um recursos naturais que ocorrem em todas as cidades, mas que são intensificados nas comunidades e em áreas mais pobres. As ilhas de calor têm esse nome por conta da variação de temperatura dentro de uma mesma cidade, onde áreas menos favorecidas são mais quentes. Segundo o especialista, esses são os principais aspectos que podem facilitar a formação de ilhas de calor: retirada da cobertura vegetal (árvores, gramíneas); impermeabilização do solo (asfalto, concreto); densidade de edificações e uso de materiais que absorvem calor; fluxo intenso de veículos; características naturais (altitude, enclaves entre morros). Segundo Armond, a Zona Norte do Rio é destaque para o específico: bairros da região como Penha, Olaria e Madureira têm 0% de arborização em determinados pontos, conforme aponta o especialista. Quando várias ilhas de calor são formadas em uma mesma região, ganha o nome de arquipélago de calor, como ocorre no Centro do Rio, nas comunidades da Rocinha, Vidigal e do Complexo do Alemão. Armond aponta ainda que áreas da Zona Oeste, como Vila Militar e Realengo, enfrentam bolsões de calor devido à circulação atmosférica entre maciços. LEIA TAMBÉM: Estudo aponta que Complexo da Maré tem pontos com temperaturas até 6°C mais altas do que em regiões próximas Rio registra aumento no atendimento médico durante onda de calor extremo Noites na varanda, ficar na rua e até dormir na laje: dificuldades que a população tem enfrentado com o calor no RJ Homem se refresca em chuveirão no Complexo da Maré Reprodução/TV Globo Para Gabriela Conc, do Observatório, o fato do Complexo do Alemão ser considerado um arquipélago de calor é reflexo da falta de políticas públicas. “O que a gente vê é consequência da falta de planejamento estratégico e da ausência de políticas públicas de melhoria urbana. O território é muito adensado, com construções próximas umas das outras, ruas estreitas e pouco espaço para circulação de vento”, afirma. As chamadas ilhas de frescor também apontam uma desigualdade social: o local carioca mais fresco, segundo Armond, é o Alto da Boa Vista, que fica rodeado pela Floresta da Tijuca, entre as Zonas Norte e Sul. A maior altitude do bairro e a cobertura vegetal são os fatores para as temperaturas mais amenas no local. Essa diferença não é apenas geográfica. Para Conc, pode ser interpretado como racismo ambiental. “Quando o poder público deixa de investir de forma sistemática em infraestrutura urbana, arborização, acesso à água, habitação adequada e políticas de adaptação climática em comunidades majoritariamente negras e periféricas, ele está produzindo um impacto desigual que tem recorte racial”, explica. “Não se trata de um problema “natural” ou individual, mas de uma escolha política que define quais vidas são protegidas e quais são deixadas para suportar os efeitos mais severos da crise climática. Por isso, o calor extremo nas favelas não é apenas uma questão ambiental, é uma questão de justiça racial, social e territorial”, complementa. Vulnerabilidade social e calor A professora Armond destaca ainda que a população em situação de rua é extremamente impactada pelo calor, por conta da dificuldade no acesso a água potável, banho e abrigo. Ela aponta que as pessoas em situação de rua têm doenças circulatórias, dermatológicas e cardiovasculares agravadas e que o calor é pior do que a chuva como fator de risco. Nas comunidades, o acesso à água potável e à luz elétrica também é um fator de risco no calor extremo. “Muitas vezes os moradores relatam falta de água e de luz justamente nos dias de calor mais intenso. E isso tem um impacto direto na sensação térmica e no bem-estar das pessoas”, afirma Conc. “Quando falta água, fica mais difícil se refrescar, tomar banho, beber água suficiente ou até molhar varandas e ruas para reduzir o calor. Já a falta de energia elétrica impede o uso de ventiladores ou aparelhos de refrigeração, e aumenta a exposição ao calor durante a noite, quando o corpo precisa descansar”, completa. Senhora usa ventilador portátil para se refrescar no Complexo do Alemão Vitória Pinheiro/Observatório do Calor Veja: Pessoas em situação de rua reclamam de condições de abrigos da Prefeitura do Rio Empresas que deveriam compensar impactos com árvores no Rio não abriram processos para o plantio Núbia aponta que o uso crescente de ar condicionado pode sobrecarregar as redes elétricas das comunidades, que já são precárias. “Então, mesmo que a temperatura do ar medida pelos sensores seja a mesma, a sensação térmica para quem vive nessas condições é muito maior. É como se o calor se torna mais ‘opressor’ porque a população não tem recursos básicos para amenizá-lo.” Caminhos para mitigação Como os especialistas indicam que o principal caminho é aumentar a cobertura vegetal, que pode ser feita através de praças arborizadas e áreas de lazer verdes dentro das comunidades. “Telhados verdes, em escolas ou equipamentos públicos, também ajudam. Outra estratégia importante é usar materiais de construção que absorvam menos calor, como telhados e paredes reflexivas, pavimentação que não acumule tanto calor e núcleos claros em superfícies expostas ajudam a reduzir a temperatura do ar e a sensação térmica”, afirma Conc. Pesquisadora do Observatório do Calor em trabalho de campo Vitória Pinheiro/Observatório do Calor É importante também aumentar a circulação de vento fresco nesses locais, mas nada disso pode ser feito sem diálogo com o povo, de acordo com Núbia Armond. “A primeira medida que o poder público precisa adotar é chegar às comunidades, especialmente às áreas periféricas em situação de vulnerabilidade, dialogar com a população, identificar as necessidades desses grupos sociais e construir soluções em conjunto. Em alguns locais, essas ações precisarão ser drásticas”, afirma. “Não é aceitável que existam bairros inteiros com 0% de arborização. Para mudar esse cenário, será necessário remover parte do asfalto, concreto e até algumas edificações, permitindo a arborização e a criação de áreas verdes. Se isso for feito de forma unilateral, surgirão problemas”, emenda Armond. Sem diálogo aberto e constante, para um especialista, nada servirá a longo prazo. “Em termos gerais, já sabemos quais são as medidas possíveis: ampliar a cobertura vegetal, controlar novas edificações, reduzir o tráfego de veículos, fortalecer o transporte público coletivo e diminuir a poluição atmosférica, incluindo o impacto de caminhões e veículos de carga”, elenca ela. “Medidas como pintar calçadas e fachadas de branco não resolvem o problema, mas podem ajudar. É igualmente essencial garantir o acesso à água limpa e investir em saneamento básico, um dos maiores gargalos das favelas do Rio de Janeiro”, completa. Calor extremo no Rio Reprodução/TV Globo Beco estreito na comunidade do Rio Reprodução/TV Globo
Pesquisa indica que moradores de comunidades do Rio podem sentir o calor extremo de forma ainda mais agudo No dia mais quente do verão no Rio de Janeiro até agora, segunda-feira (12), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou 40,8°C na Vila Militar. A medição do Alerta Rio, órgão da prefeitura, foi além de: 41,4°C, em Santa Cruz. Enquanto isso, o Complexo do Alemão enfrentou um calor de 42,2°C, de acordo com outro sistema de medição, o Observatório do Calor. O projeto, parceria entre a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima e a ONG Voz das Comunidades, existe desde 2023 e nunca teve temperatura registrada tão alta. O observatório foi criado com o objetivo de produzir dados e evidências sobre os impactos das mudanças climáticas em territórios de favela. No Inmet e no Alerta Rio, as estações de medição não ficam dentro de comunidades, onde há as chamadas “ilhas de calor” – no caso do Alemão, um “arquipélago de calor” (entenda abaixo). Uma pesquisa indicou falta de árvores intensas ou calor extremo nas comunidades. “Medimos principalmente a temperatura do ar, porque é ela que impacta diretamente a saúde, o bem-estar e a forma como o calor é sentido no dia a dia pelas pessoas no território”, explica Gabriela Conc, diretora executiva do Voz das Comunidades e idealizadora do Observatório do Calor do Complexo. “Não é só a temperatura do solo que define a experiência cotidiana, mas o ar que circula nas casas, nas ruas e nos espaços de convivência”, completa. Ilhas de calor Mulher bebe água no calor do Rio Reprodução/TV Globo Para a especialista em climatologia Núbia Armond, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora da Universidade de Indiana (EUA), as ilhas de calor são um recursos naturais que ocorrem em todas as cidades, mas que são intensificados nas comunidades e em áreas mais pobres. As ilhas de calor têm esse nome por conta da variação de temperatura dentro de uma mesma cidade, onde áreas menos favorecidas são mais quentes. Segundo o especialista, esses são os principais aspectos que podem facilitar a formação de ilhas de calor: retirada da cobertura vegetal (árvores, gramíneas); impermeabilização do solo (asfalto, concreto); densidade de edificações e uso de materiais que absorvem calor; fluxo intenso de veículos; características naturais (altitude, enclaves entre morros). Segundo Armond, a Zona Norte do Rio é destaque para o específico: bairros da região como Penha, Olaria e Madureira têm 0% de arborização em determinados pontos, conforme aponta o especialista. Quando várias ilhas de calor são formadas em uma mesma região, ganha o nome de arquipélago de calor, como ocorre no Centro do Rio, nas comunidades da Rocinha, Vidigal e do Complexo do Alemão. Armond aponta ainda que áreas da Zona Oeste, como Vila Militar e Realengo, enfrentam bolsões de calor devido à circulação atmosférica entre maciços. LEIA TAMBÉM: Estudo aponta que Complexo da Maré tem pontos com temperaturas até 6°C mais altas do que em regiões próximas Rio registra aumento no atendimento médico durante onda de calor extremo Noites na varanda, ficar na rua e até dormir na laje: dificuldades que a população tem enfrentado com o calor no RJ Homem se refresca em chuveirão no Complexo da Maré Reprodução/TV Globo Para Gabriela Conc, do Observatório, o fato do Complexo do Alemão ser considerado um arquipélago de calor é reflexo da falta de políticas públicas. “O que a gente vê é consequência da falta de planejamento estratégico e da ausência de políticas públicas de melhoria urbana. O território é muito adensado, com construções próximas umas das outras, ruas estreitas e pouco espaço para circulação de vento”, afirma. As chamadas ilhas de frescor também apontam uma desigualdade social: o local carioca mais fresco, segundo Armond, é o Alto da Boa Vista, que fica rodeado pela Floresta da Tijuca, entre as Zonas Norte e Sul. A maior altitude do bairro e a cobertura vegetal são os fatores para as temperaturas mais amenas no local. Essa diferença não é apenas geográfica. Para Conc, pode ser interpretado como racismo ambiental. “Quando o poder público deixa de investir de forma sistemática em infraestrutura urbana, arborização, acesso à água, habitação adequada e políticas de adaptação climática em comunidades majoritariamente negras e periféricas, ele está produzindo um impacto desigual que tem recorte racial”, explica. “Não se trata de um problema “natural” ou individual, mas de uma escolha política que define quais vidas são protegidas e quais são deixadas para suportar os efeitos mais severos da crise climática. Por isso, o calor extremo nas favelas não é apenas uma questão ambiental, é uma questão de justiça racial, social e territorial”, complementa. Vulnerabilidade social e calor A professora Armond destaca ainda que a população em situação de rua é extremamente impactada pelo calor, por conta da dificuldade no acesso a água potável, banho e abrigo. Ela aponta que as pessoas em situação de rua têm doenças circulatórias, dermatológicas e cardiovasculares agravadas e que o calor é pior do que a chuva como fator de risco. Nas comunidades, o acesso à água potável e à luz elétrica também é um fator de risco no calor extremo. “Muitas vezes os moradores relatam falta de água e de luz justamente nos dias de calor mais intenso. E isso tem um impacto direto na sensação térmica e no bem-estar das pessoas”, afirma Conc. “Quando falta água, fica mais difícil se refrescar, tomar banho, beber água suficiente ou até molhar varandas e ruas para reduzir o calor. Já a falta de energia elétrica impede o uso de ventiladores ou aparelhos de refrigeração, e aumenta a exposição ao calor durante a noite, quando o corpo precisa descansar”, completa. Senhora usa ventilador portátil para se refrescar no Complexo do Alemão Vitória Pinheiro/Observatório do Calor Veja: Pessoas em situação de rua reclamam de condições de abrigos da Prefeitura do Rio Empresas que deveriam compensar impactos com árvores no Rio não abriram processos para o plantio Núbia aponta que o uso crescente de ar condicionado pode sobrecarregar as redes elétricas das comunidades, que já são precárias. “Então, mesmo que a temperatura do ar medida pelos sensores seja a mesma, a sensação térmica para quem vive nessas condições é muito maior. É como se o calor se torna mais ‘opressor’ porque a população não tem recursos básicos para amenizá-lo.” Caminhos para mitigação Como os especialistas indicam que o principal caminho é aumentar a cobertura vegetal, que pode ser feita através de praças arborizadas e áreas de lazer verdes dentro das comunidades. “Telhados verdes, em escolas ou equipamentos públicos, também ajudam. Outra estratégia importante é usar materiais de construção que absorvam menos calor, como telhados e paredes reflexivas, pavimentação que não acumule tanto calor e núcleos claros em superfícies expostas ajudam a reduzir a temperatura do ar e a sensação térmica”, afirma Conc. Pesquisadora do Observatório do Calor em trabalho de campo Vitória Pinheiro/Observatório do Calor É importante também aumentar a circulação de vento fresco nesses locais, mas nada disso pode ser feito sem diálogo com o povo, de acordo com Núbia Armond. “A primeira medida que o poder público precisa adotar é chegar às comunidades, especialmente às áreas periféricas em situação de vulnerabilidade, dialogar com a população, identificar as necessidades desses grupos sociais e construir soluções em conjunto. Em alguns locais, essas ações precisarão ser drásticas”, afirma. “Não é aceitável que existam bairros inteiros com 0% de arborização. Para mudar esse cenário, será necessário remover parte do asfalto, concreto e até algumas edificações, permitindo a arborização e a criação de áreas verdes. Se isso for feito de forma unilateral, surgirão problemas”, emenda Armond. Sem diálogo aberto e constante, para um especialista, nada servirá a longo prazo. “Em termos gerais, já sabemos quais são as medidas possíveis: ampliar a cobertura vegetal, controlar novas edificações, reduzir o tráfego de veículos, fortalecer o transporte público coletivo e diminuir a poluição atmosférica, incluindo o impacto de caminhões e veículos de carga”, elenca ela. “Medidas como pintar calçadas e fachadas de branco não resolvem o problema, mas podem ajudar. É igualmente essencial garantir o acesso à água limpa e investir em saneamento básico, um dos maiores gargalos das favelas do Rio de Janeiro”, completa. Calor extremo no Rio Reprodução/TV Globo Beco estreito na comunidade do Rio Reprodução/TV Globo[/gpt3]

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