
O cenário geopolítico em 2026 ficou mais complexo para a economia brasileira com o ditador venezuelano Nicolás Maduro preso por tropas de elite americanas no sábado (3), em Caracas. A operação aumentou entre os EUA e a China, as duas maiores economias mundiais e os dois principais parceiros comerciais do Brasil. A China é um importante aliado do regime chavista.
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que o mundo está se reorganizando geopoliticamente. Além da questão venezuelana – com Maduro preso -, a guerra na Ucrânia deixa os preços instáveis, EUA e China disputam minerais raros, e a inteligência artificial precisa de energia barata — algo que o Brasil tem de sobra.
O cenário encerra décadas de inflação baixa e comércio livre. Os países agora buscam segurança de qualidade, mesmo com custos maiores. Isso traz riscos e oportunidades que desativam configurações estratégicas. O mercado financeiro já começa a reagir. A prisão do ditador reflete essa reorganização global.
Maduro preso: Venezuela pode virar rival do Brasil no petróleo
Maduro preso pode ajudar a encerrar décadas de chavismo que destruiu a democracia na Venezuela. Segundo a Unidade de Inteligência Economista (EIU), desde 2006 o país caiu de 93° para 142° no ranking de democracias, que reúne 176 países — atrás de Cuba.
A Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo: 300 bilhões de barris. Mas a ditadura prejudica a produção para 1,1 milhão de bairros por dia, menos de 1% do total mundial. É menos de um terço do que produzia antes de Hugo Chávez, em 1999.
O retorno das petroleiras americanas pode inundar o mercado com o petróleo. Atualmente, apenas a Chevron opera no país. Analistas da XP e da Genial esperam queda nos preços, embora possa haver oscilações no curto prazo enquanto o mercado se ajusta à nova oferta.
Segundo Janus Henderson, um dos maiores gestores mundiais de fundos de investimentos, com ajuda externa, a Venezuela pode dobrar a produção para 2 milhões de bairros por dia em dois anos. No cenário mais otimista, chegaria a 3 ou 4 milhões de diários, mas a recuperação total poderia levar até uma década. “Isso vai derrubar o preço do Brent, prejudicando as petroleiras brasileiras”, afirma Vitor Souza, analista da Genial Investimentos.
Os EUA, sob Trump, querem controlar uma “mini-Opep”. Washington passaria a deter uma ferramenta poderosa para neutralizar as decisões do cartel liderado pela Arábia Saudita, diz o analista.
Dominando o petróleo venezuelano, Washington pode combater os cartéis e garantir energia barata para manter a inflação baixa. Bom para o consumidor americano, ruim para quem produz mercadorias.
Há entraves, no entanto. A indústria petrolífera venezuelana perdeu especialistas desde os anos 1990. Muitos foram demitidos ou fugiram do país, lembra Gustavo Vasquez, gerente de petróleo e GLP da Argus, que produz análises de preços para o mercado de combustíveis, agrícolas, fertilizantes, petroquímicos e gás natural.
Canos roubados, peças removidas e décadas sem manutenção deixaram uma infraestrutura devastada. Converter refinarias é ainda mais complexo. A refinaria de Cardón teve outro apagão em 2025, e Colômbia e Venezuela não conseguiram religar um gasoduto, mesmo com apoio dos presidentes dos dois países, Gustavo Petro e Nicolás Maduro. Mas a Venezuela é apenas uma peça do quebra-cabeça energético global.
Petróleo barato pressionou Petrobras e petroleiras menores
Com a possível recuperação da produção venezuelana, o investidor brasileiro no setor de óleo e gás precisa de atenção redobrada. O país deixa de ser prioridade na região e ganha um concorrente gigante. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e as restrições ambientais na Margem Equatorial viram grandes problemas diante da Venezuela, que podem oferecer ambiente regulatório mais favorável. As contas públicas equilibradas e instituições derivadas são essenciais nesse cenário, destaca Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).
A Petrobras e as petroleiras menores enfrentarão novo desafio. Com o petróleo tendendo a preços menores, controlar gastos fará a diferença entre lucro e prejuízo. Um estatal, apesar de ter custo baixo no pré-sal, pode ver sua caixa cair. Com o petróleo a US$ 55, teria problemas para honrar dívidas.
Empresas como Brava e PetroRecôncavo podem sofrer mais por terem custos altos. “Essas empresas sofrem mais quando o preço do petróleo cai. O motivo é claro: elas têm custos de produção mais elevados e maior endividamento em relação às gigantes do setor”, diz Souza.
Mas a abertura da Venezuela pode oferecer uma expansão iniciada. Campos deteriorados podem ser comprados a preço baixo, apesar do risco alto. Recuperar campos antigos na Venezuela atrai empresas, mas o momento exige cautela até que o novo governo venezuelano defina as regras. Empresas com pouca dívida e eficiência alta terão mais bem posicionadas.
Guerra na Ucrânia, Taiwan e as novas tarifas
Além da Venezuela, os conflitos como a guerra na Ucrânia e o conflito em Taiwan continuam preocupando os investidores. Se piorarem, o capital sai dos países em desenvolvimento e busca segurança no dólar, enviando moedas emergentes como o real.
O JP Morgan Private Bank lembra que a guerra na Ucrânia acabou com o “dividendo da paz” — período em que os gastos militares eram baixos. “Agora os países preferem segurança a custos baixos. Rearmamento e busca por energia própria viraram prioridade”, diz o banco.
Taiwan produz 80% dos fichas mais avançados do mundo. Um ataque chinês paralisaria o completo de peças para IA e indústria militar, lembra Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. “O mundo travaria. A China busca controlar toda a cadeia para escapar de avaliações, encarecendo produtos”, diz ele. Comércio e investimentos em 2026 dependerão cada vez mais de alianças regionais e segurança estratégica.
As tarifas dos EUA mudam conforme as regras do jogo. O objetivo é trazer produção de bens essenciais (fichasbaterias) para casa, mesmo que isso suba à inflação mundial. A segurança passa a valer mais que o preço baixo, reorganizando cadeias produtivas globais.
A inflação mundial fica mais assustadora — mesmo com o petróleo venezuelano empurrando para baixo. Isso limita os cortes de juros pelos grandes bancos centrais, como o Reserva Federal. Para o Brasil, o impacto é direto: a diferença entre juros daqui e de fora pressionado o dólar. Mas esse cenário de reorganização global não traz apenas riscos.
Terras raras e IA: uma chance do ouro do Brasil
A riqueza natural coloca o Brasil em posição estratégica na disputa por segurança energética e mineral que domina 2026. O JP Morgan Private Bank aponta que a Inteligência Artificial (IA) dispara a demanda por minerais raros, e o Brasil é exportador essencial de produtos agrícolas e minerais. “Controlar recursos, terras e água virou questão de segurança. A riqueza mineral do Brasil atrai investimento”, diz o banco.
O país tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, restrita à indústria militar e tecnológica. Hoje os EUA dependem da China, seu maior rival, para ter esses minerais. Segundo Vale, da MB Associados, terras raras são a base para a indústria de fichas. “O mundo está deixando a produção globalizada e se dividindo em blocos. Isso vai subir custos e exigir novos fornecedores”, diz.
O Brasil tem um trunfo valioso para negociar parcerias e atrair investimentos. Podemos virar uma peça importante na segurança do Ocidente, fornecendo alternativas à dependência chinesa.
Thomas Giuberti, sócio da Golden Investimentos, lembra que o Brasil pode trocar o fornecimento desses minerais por apoio estratégico. Se investir agora, pode ter 20% desse mercado até 2030. Mas precisa de regras claras e investir investimento para refino — etapas que a China domina.
Pablo Salgado, gerente de portfólio da Itaú Asset Management, diz que a China monopolizou cadeias produtivas, incluindo terras raras, para usar como arma. Especialistas chamam de “guerra econômica”. A eficiência cede lugar à segurança, e o Brasil surge como alternativa para o Ocidente depender menos de Pequim. A diplomacia brasileira precisará abrir portas em Washington sem fechar mercados na China.
Além dos minerais, a inteligência artificial cria novas oportunidades para o Brasil. A IA vai criar uma economia de duas velocidades em 2026, dizem analistas do UBS. Tecnologia avança rápida, com investimentos bilionários em centros de dados. O resto da economia vai mais devagar. Para aproveitar, o Brasil precisa de energia limpa e barata, um dos seus maiores trunfos, detalha Luciano Telo, diretor de investimentos do banco suíço UBS no Brasil.
O maior limite para a IA em 2026 é energia elétrica. Centros de dados precisa de contínuo e barato. Como líder em hidrelétricas e eólicas, o Brasil está bem posicionado para atrair investimentos tecnológicos. Mas a instabilidade institucional atrapalha.
Risco fiscal: o perigo das contas públicas
Apesar das oportunidades com minerais e energia, os desafios fiscais permanecem. O efeito mais imediato da volta do petróleo venezuelano é a queda da inflação mundial. Com energia mais barata, os bancos centrais (Fed e Bacen) podem cortar juros. A inflação nos EUA já cai em 2026, tornando possível crescimento com inflação baixa.
Mas as contas públicas brasileiras preocupam. Tirando o período breve entre 2021 e 2023, estão no vermelho desde 2014. O Brasil depende de exportar petróleo para equilibrar as contas. Só os óleos brutos deram quase US$ 41 bilhões entre janeiro e novembro de 2025, 13% das exportações.
Queda forte no preço pode aumentar o rombo e subir juros longos (DI Futuro). O país também perde atratividade para novos investimentos no setor. Tensões no Oriente Médio também afetam o preço do petróleo e a inflação brasileira.
Lula, Maduro preso e o eleitor do centro
Além dos impactos econômicos, com Maduro haverá efeitos políticos diretos no Brasil. Lula, historicamente ligado a Maduro, está em posição difícil. As brigas se acentuaram nos últimos anos, especialmente após não considerarem a reeleição fraudulenta do ditador.
A oposição já usa redes sociais para lembrar Lula defendendo o chavismo. Termos como “democracia relativa” voltam ao debate. Investidores veem chance maior de mudança de poder em 2026.
O Planalto tenta se afastar, focando na “soberania nacional”. O Itamaraty mantém tradição contra violência e por autodeterminação. Mas o eleitor de centro, que decide eleições, é selecionado à defesa de ditaduras.
Estrategistas da XP e da Genial lembram que o possível fim da ditadura venezuelana, com Maduro preso, mostra que regimes que ignoram as leis de mercado tendem a colapsar. No chavismo, estatização e perseguição à iniciativa privada destruíram a produção. A disputa por investimento punirá países desorganizados, dizem.
Pires alerta que o Brasil ganha “grande concorrente” e critica a lentidão em abrir novas áreas. “Não podemos fingir que está tudo bem. Investimento não perdoa lentidão”, diz. O evento marca maior influência dos EUA na América Latina, mudando alianças. A política brasileira vai ferver. O próximo governo precisará ter cuidado, evitando medidas populistas que piorem a visão de risco.
O Brasil precisa de estabilidade para atrair mais investimentos
Diante desse quadro complexo, o Brasil está numa encruzilhada. Com Maduro teve um efeito profundo na economia, mas o país enfrentou um cenário ainda mais amplo em 2026. Além da Venezuela, a guerra na Ucrânia, disputa por terras raras e IA muda investimentos e cadeias de fornecimento global. Para o investidor, ignorar isso é perigoso.
A capacidade de fornecer terras raras e energia limpa coloca o país em posição estratégica. Como líder em hidrelétricas e eólicas, pode capturar investimentos em centros de dados e infraestrutura tecnológica.
A chance é limitada: outros emergentes competem forte. Atrair investimento em 2026 vai depender da estabilidade interna. Falta de harmonia entre Executivo, Legislativo e Judiciário corroi a confiança. Decisões que mudam leis de repente ou com efeito retroativo prejudicam a segurança jurídica.
Segundo Solange Srour, diretora de macroeconomia do Brasil do UBS Wealth Management, o país precisa de choque de revisão nas contas públicas para não ficar no crescimento baixo. Endividamento crescente limita a capacidade do Estado de lidar com crises externas. Reformas para garantir a sustentabilidade da dívida são essenciais para financiar o desenvolvimento.











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