Pesquisadores de vários países, entre eles o Brasil, analisaram material genético de cerca de 100 famílias ucranianas vítimas do acidente nuclear de 1986. Resultado foi publicado na revista Science. Pesquisa mostra que filhos de vítimas de Chernobyl não tiveram mutações genéticas
Um estudo publicado na revista Science descartou mutações genéticas capazes de ameaçar a saúde de descendentes de pessoas que foram expostas à radiação da explosão de Chernobyl, em 1986.
A pesquisa, coordenada pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, envolveu 38 pesquisadores de universidades de vários países, entre eles o Brasil.
Eles analisaram o material genético de cerca de 100 famílias ucranianas e constaram que os filhos nascidos entre 1987 e 2002 de vítimas do acidente nuclear não desenvolveram mutações acima do esperado.
Um dos participantes dessa análise é Leandro Machado Colli, coordenador do serviço de oncologia do Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto (SP). Segundo ele, foram selecionados pais e filhos da mesma família, sendo o pai ou a mãe vítima do acidente.
A partir disso, os pesquisadores coletaram materiais genéticos e fizeram o sequenciamento para identificar quais eram as mutações que a criança tinha, mas que os pais não.
“Isso [mutações] é muito comum na evolução da espécie humana, todos nós temos isso, mas queríamos saber se por causa da radiação, teria um maior efeito nessas crianças. E a gente não encontrou, encontrou as mesmas taxas [comparado a quem não foi exposto à radiação]. A mesma taxa de mutações novas. Então não tem um excesso de mutação, como era muito especulado.”
Leandro Machado Colli, coordenador do serviço de oncologia do Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto (SP), integrou estudo
Reprodução/EPTV
‘Traz luz’
Colli explica que pessoas que foram expostas a altos níveis de radiação, como em Chernobyl, acumulam mutações no DNA a longo prazo e podem ser acometidas por várias doenças, inclusive câncer.
Porém, os resultados obtidos no estudo demonstram que a chance de os descendentes terem essas doenças no decorrer da vida por conta da radiação é muito pequena, o que “traz luz” a pais e filhos.
“Em vários desses acidentes, as pessoas decidiram não ter filhos, com medo de passar esse efeito para o próximo. Esse estudo traz luz, mostrando que se existe alguma coisa, ela é muito pequena. Do ponto de um estudo extremamente amplo, com mais de uma centena de pessoas, com sequenciamento completo, profundo, a gente não encontrou diferenças do que acontece normalmente com a população.”
Pesquisadores analisaram o material genético de cerca de 100 famílias ucranianas
Reprodução/EPTV
Agora, os pesquisadores querem analisar outros acidentes nucleares com níveis e tipos de radiação diferentes aos de Chernobyl para averiguar se também não houve impactos genéticos nesses casos.
De qualquer forma, Leandro Colli acredita que essa primeira pesquisa já pode trazer maior tranquilidade em eventuais novos acidentes.
“A gente espera que não aconteçam novos acidentes, mas se isso acontecer, temos hoje dados mais robustos para tranquilizar essas pessoas no seu planejamento de continuidade da vida após esse tipo de acidente.”
Arredores da usina nuclear de Chernobyl
Getty Images/Via BBC
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