IgG se tornou conhecido depois da popularização dos testes rápidos para identificar se uma pessoa foi infectada pelo coronavírus. Hoje há novos exames disponíveis, mas a análise isolada do IgG não atesta proteção. O presidente Jair Bolsonaro durante visita ao Santuário de Aparecida, em SP, nesta terça (12)
Carla Carniel/Reuters
Em uma nova afirmação desprovida de base científica, o presidente Jair Bolsonaro afirmou agora que decidiu não se vacinar contra a Covid-19 porque mantém alto índice de um tipo de anticorpo contra a doença.
“No tocante à vacina, eu decidi não tomar mais a vacina. (…) A minha imunização está lá em cima, IGG está 991. Para que eu vou tomar uma vacina?”, que Bolsonaro.
Abaixo, em cinco tópicos, veja o posicionamento de médicos e entidades sobre o argumento de Bolsonaro e por que eles afirmam que é um erro tomar o IgG como sinal de imunidade contra a Covid.
1 – O que é o IgG e como o corpo se defende?
O corpo humano tem dois tipos de respostas imunológicas: a humoral e a celular. A resposta humoral inclui linfócitos B, produção de imunoglobulinas (Igs) de quatro classes (IgM, IgG, IgA e IgE). A resposta celular dependente de linfócitos T, que podem ser do tipo CD4 e CD8.
Os anticorpos humorais são a primeira resposta do corpo ao receber um imunizante ou quando entramos em contato com um vírus. Na sigla IgG, o Ig significa imunoglobulina. A imunoglobulina é um tipo de anticorpo produzido pelo sistema imunológico contra um agente invasor. IgG, então, é uma imonuglobina da classe G.
A presença do IgG nos testes indica se houve contato com o vírus. No caso dos testes rápidos de farmácia, também indicam em que estágio da doença a pessoa infectada se encontra.
A principal resposta contra a replicação do coronavírus na célula é dada pelos anticorpos neutralizantes, conhecidos pela sigla nAb.
No caso da Covid-19, os nAB atuam em uma parte bem específica do vírus e impedem a entrada dele na célula-alvo. Já os anticorpos IgG podem agir de forma menos específica contra o Sars-Cov-2 e não impedir sua replicação. Por isso, eles podem ser bons sinais de se uma pessoa já teve Covid, mas não necessariamente uma pessoa com IgG alto tem bons níveis de anticorpos neutralizantes.
Por isso, os testes sorológicos não são capazes analisar toda a resposta do corpo. Vale apontar ainda que as células de memória não são avaliadas nesses exames. Por isso, medir o IgG pode revelar apenas uma pequena parte de um processo muito maior que é a formação da imunidade contra o vírus como um todo.
2 – Bolsonaro diz que IGG está 991. O que isso significa?
“Isso significa que tem altos títulos de IgG, mas não necessariamente reflete me proteção. Para avaliar a proteção devemos avaliar se as Igs produzidas são neutralizantes para o vírus, o que normalmente não é avaliado na rotina de dosagem da Igs”, explica João Viola, presidente do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI).
“A IgG mostra uma resposta humoral importante, mas devemos avaliar não só a IgG, mas também a IgA que são importantes para imunidade de mucosas. Mas além disso, devemos avaliar a reposta imune celular dependente de linfócitos T CD8”, completa Viola.
“Já foi demonstrado que indivíduos com baixos títulos de IgG podem ter uma boa resposta anti-Covid pois tem uma boa resposta celular, mas o contrario também é verdadeiro, pois indivíduos com títulos altos de IgG podem ter uma resposta não eficiente, pois falham na resposta celular”, explica João Viola.
3 – Há valores de referência para se dizer que uma pessoa está com anticorpos suficientes para se dizer imune?
“Não temos valores de referência, mas altos títulos de Igs são importantes, mas mais importante do que os valores é saber a classe de anticorpos, incluindo IgG (Igs de memória imunológica) e IgA que são Igs que protegem mucosas, nesse caso importante para protegem do coronavírus, pois esse é um vírus que infecta (contato) pelo mucosa de vias aéreas superiores”, explica o presidente do comitê científico da SBI.
4 – Qual a recomendação da Anvisa sobre medição de IgG?
Na nota técnica 33/2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alertou que os testes para diagnóstico de Covid-19 disponíveis no mercado não devem ser utilizados para atestar o nível de proteção contra o novo coronavírus. No caso, a recomendação surgiu diante da busca de pessoas que tinham se vacinado e queriam saber se a “vacina pegou”.
“Não existe, até o momento, a definição da quantidade mínima de anticorpos neutralizantes – que evitam a entrada e a replicação do vírus nas células – para conferir proteção imunológica contra a infecção, reinfecção, formas graves da doença e novas variantes de Sars-CoV-2 em circulação”, explicou a Anvisa.
“A Agência reforça, ainda, que não há embasamento científico que correlacione a presença de anticorpos contra o Sars-Cov-2 no organismo e a proteção à reinfecção.” – Anvisa
5 – Por que mesmo que já pegou Covid deve se vacinar?
O presidente do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), João Viola, lembra que a vacina tem uma composição testada para levar uma quantidade ideal do material que fará o corpo se preparar para lutar contra o vírus. Além disso, as diferentes doses e o reforço promovem uma resposta mais consistente e eficaz quando comparada com a infecção viral.
A diretora do Centro de Desenvolvimento e Inovação do Butantan, Ana Marisa Chudzinski, lembra que “as vacinas não induzem um único tipo de resposta”. A resposta imunológica gerada pela vacina pode manter uma espécie de lembrança que guarda na “memória” dados do patógeno contra o qual o corpo já entrou em contato.
É a partir dessa “recordação” que o corpo consegue gerar anticorpos se o vírus ou bactéria aparecer novamente no futuro. “Se mais tarde você tiver contato com o organismo patogênico, o seu corpo vai responder e te defender”, completa Ana Marisa.
“Dosar se eu tenho 1, 10, 50, 100% de anticorpos não é conclusivo para dizer se uma pessoa está imunizada ou não. O número de anticorpos vai cair, mas é a memória que interessa”, diz Ana Marisa.
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